Thursday, February 19, 2009

De uma mente com lembranças

Não. Ele não é meu.
Nunca se apercebeu de meu sorriso triste
o mesmo nas tantas despedidas
que aparecia no rosto com o medo da falta de zelo

E isso só em mim
Doía ver-te ir embora sem me dar teu amanhã
fazendo todas as noites parecerem a última.

Tu também não 'via' que meu olho brilhava era de dúvida
de raiva
pelo apego incoerente
de querer quem me maltrata por dentro

Você nunca esteve por horas e horas
Nem me alimentou com promessas
O que foi nobre
não me iludo.
definho sem brilho
cansada do efêmero que é,
que foi
e não será.

E eu que já consigo gostar de mim
e tentando não me render,
vou me consumindo
na eterna incoerência hilstiana de desamar, amando
quem nunca me amou.
E (me) lembrando-te, fazedor de desgosto,
Que um dia te apago de mim.

Tuesday, February 10, 2009

Da minha descrição...

... segundo um amigo jornalista de Brasília:


"Desembarcando em Brasília, toda vestida de preto, como se tivesse acabado de desembarcar em Helsinque, indo para a esquerda errada"...

"vc vê novela loucamente, lê graciliano ramos, consegue beber feito um gambá, fica loucamente feliz com um saco de balinhas e faz manha quando quer uma coisa, cozinha (!?), consegue ser interessante e engraçada. e às vezes grossa e injusta (hehehe...), ou seja, uma caixinha de surpresas. não consigo colocar vc nos meus tubos de ensaio, got it?"

Tuesday, February 03, 2009

Da conversa "amigável"

No msn conversando com um amigo. Ele, mestre em sutilezas, adora escrever gracinhas sobre a minha cutis branquela-européia. E eu revido falando da sua tonalidade afro. Eis o diálogo:


Bob diz:
cara de máááááármore!
PaTs- diz:
cara de buchada de bode
Bob- diz:
Albina
Bob- diz:
hahahahaha
PaTs- diz:
coitá docê
Bob diz:
Tapiocu
Bob diz:
cara de bunda com pó de arroz
Pats diz:
Af!
Bob diz:
Ah, vai estudar, cara lavada de água oxigenada!
PaTs- diz:
burro piolhento
PaTs- diz:
nao evoluiu junto com a especie
Bob diz:
E tu que é uma esquimó que não pode nem andar pelada na neve se não te perdem...
PaTs- diz:
crime perfeito: te matar e jogar num monte de merda. nunca vao achar o corpo.
Bob diz:
esconderijo perfeito: esconde no armarinho do banheiro, todo mundo vai achar que é uma mini bolinha de algodão
PaTs- diz:
que bonitinhoooooo
PaTs- diz:
vou copiar e botar no orkut
Bob diz:
vou cobrar
PaTs- diz:
melhor : vo botar no blog nossa conversa
Bob diz:
e eu vou te cobrir de porrada pra ver se você fica parecendo um algodão menstruado
PaTs- diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
PaTs- diz:
isso vai entrar tb
Bob diz:
Vou te mostrar o que vai entrar, OMO.

A gente se "ofende" soltando risos cada qual atrás da sua tela. E quando encontra, é que nem brother: E aí, veado, beleza?
Sim, dá para brincar com coisa séria e deixar o tabu mais leve.
Pela paz inter-racial!

Monday, January 26, 2009

Do filme O Curioso Caso de Benjamin Button

Assisti ontem. Desde que passou o trailer no cinema quando fui ver Vicky Cristina Barcelona (Sensacional! Woody Allen, sou suspeita em opinar), achei a idéia do filme interessantíssima. Um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar do tempo. Alguém, cujo relógio da vida anda ao contrário. Imediatamente lembrei daquele texto atribuído ao Chaplin que já muito circulou na internet... e que diz mais ao menos que o ciclo da vida é injusto. Devíamos primeiro morrer logo para ficar livre disso duma vez. Envelhecer, ficar jovem, criança e voltar para o útero da mãe onde tudo terminaria num orgasmo. A originalidade rende uma bela reflexão. Por que não um belo filme? Nada. Depois de quase três horas sentada, quando as luzes acenderam, virei para a cadeira de trás onde estava a minha mãe e disse: Odiei! Ela: eu também, com cara de sono. Flagrei mainha dormindo quando, lá pelas tantas do filme, o Brad Pitt aparece tal como ele é, lindo e jovial, cachecol esvoaçante, em cima de uma moto. Virei com o sorrisão no rosto para mainha que, para minha decepção, nessa hora dormia. Perdeu o melhor do filme: o Brad Pitt quando fica gato.
O longa é ruim porque cheio de clichês. A começar, a história é narrada a partir do diário do Benjamin que vai parar nas mãos da sua amada. Esta, bem velha, se encontra no leito de hospital, à beira da morte, enquanto ouve a filha ler as páginas e vai rememorando, saudosa, os dias que passou ao lado da grande paixão da sua vida (Titanic sem navio?). Além do clichê de se encontrar moribunda, o filme resgata a pieguice do amor único e eterno, tão combalido nos dias de hoje. Dá vontade de levantar e ir embora numa das cenas finais. Não vou contar porque pode ser que alguém se atreva a ir ver o filme. Mas dou uma dica: se passa na janela do hospital.
Eu ontem bem que sugeri a mainha para vermos "Queime depois de ler". E quase fomos. Cheguei a ouvir ela perguntando pro seu namorado: "Por que não vamos assistir o filme que a Pati disse, 'Rasgue e Jogue Fora?'". Quem conhece minha mãe, sabe como ela é mestre em trocar os nomes das coisas. Pelo menos em Queime depois de ler, se for ruim (não vi ainda), ela não correria o risco de perder a única parte boa do filme... Neste, Brad Pitt está lindo e jovem o tempo todo.

Friday, January 16, 2009

Do paradoxo

Eu me odeio por me importar com você.

Wednesday, December 31, 2008

De 2008

Balanço sentimental de 2008.

Fim de namoro tipo casório logo no início do ano. Sozinha com muitas garrafas de champagnhe, perdida no Rio Grande, minhas amigas de férias em suas respectivas cidades. Mas quando voltaram, ao lado delas, baladeiras e solteiras, o resultado não podia ser outro senão badalação. Primeiro dia na night totaly alone, vestido decotado da Rebeca, ainda mais ousado no meu quadril tiquinho maior que o dela, rumamos para o Coyo, a nossa boate favorita no primeiro semestre.

Homem bonito não faltava. Mas estava desacostumada com a calhordice dos machos depois de 3 anos com um homem decente. Procurando o toquinho da Rebeca que estava chorando atrás do balcão (para desespero dos garçons) em busca da cartela que estava na minha bolsa, esbarrei com um cara lindo, camisa branca de botão e manga comprida, um pouco aberta, mas sem ser peão. Depois de uma conversa básica, ficamos. Mas ele acabou confessando que tinha namorada e começou a falar do quão ruim estava seu relacionamento. Mas de psicóloga passei a paciente. Comecei a chorar falando que tinha acabado de terminar meu namoro. E fui pra casa de cara borrada.

Depois, no mesmo Coyote, encontrei um cara bonito e bacana. Ele trabalhava lá e sempre saía pela porta dos fundos quando estavam no lugar mais de uma menina que ele costumava ficar. "Graças a Deus existe aquela porta da cozinha", confessou numa noite. Mas eu achava graça. Ele sabe. Éramos Tomas e Sabina. E eu voltava para casa de sorriso no rosto.
No meio tempo teve o jornalista legal que só conhecia de vista e com o qual conversei virtualmente. As palavras dele me fizeram chegar a seguinte conclusão: "Porra, acho que meu destino é casar com um jornalista. Eles tem a manha do que escrever". Os textinhos no preto e branco do msn ficavam coloridos a cada resposta dele. Contei os dias para encontrá-lo. Ele não mora mais em BH e aqui veio umas duas semanas depois das conversas virtuais. Escolhi um lugar romântico e me vesti que nem moça para casar. Vestidinho amarelo florido até o joelho. Bolsinha creme, tom sobre tom. Sandália alta, lógico. Louca para ouvir frases coloridas. Mas na mesa só pensava na música relicário: "O que está acontecendo? Milhões de frases sem nenhuma cor". Peraí. Milhões? Não. Ele não falava. E enquanto eu tentava puxar conversa, ele dormiu duas vezes sentado na mesa com velas e garrafas de vinho. Ow, calma aí. Não era para dormir. Resultado: voltei para casa frustrada. De novo.

O outro jornalista, "meu futuro marido" nas palavras da minha grande amiga enganada, também rendeu apelos a Nosso Senhor protetor dos homens idiotas. Depois do estilo namoradinho perfeito, se revelou. Num bar, um colega em comum com muita cachaça na cachola chegou em mim. O amigo do "meu futuro marido", nobremente, tomou as dores. Mas, para meu espanto, o pretendente colocou a culpa em mim. Será que minha calça saruel tava muita justa? E ainda tive que escutar meu primo gaiato cantar Vander Lee no violão o dia inteiro seguinte: "Morro de saudade, A CULPA É SUA". Sem contar que saí dirigindo transtornada e detonei o carro em duas pilastras que apareceram no meio da garagem. Voltei para casa com prejuízo financeiro de mil reais. E afetivo de um amigo e um pretendente a menos.

E, por último, o meu ex-amigo modelete com o qual nunca tive pretensões maiores. Desde a época da faculdade, eu dizia em relação a ele: "Lindo, mas nunca pegaria". Só que, um dia, depois de um enterro e vontade sem igual de curtir a vida, estava doida para sair. Percorri toda a minha agenda telefônica. Os amigos le(g)ais não estavam disponíveis. Contrariada, fui ver televisão. Efeito Borboleta. Me aparece Ashton Kushner na tela. Lembrei do modelete que com ele se parece. Estávamos combinando de encontrar desde que voltei para a capital mineira, mas sem segundas intenções. Pelo menos da minha parte. Entrei em contato com ele que ia para um lugar com um amigo. "Opa, pelo menos vai um amigo. Nada de esquema então", conclui. Mas para minha bela surpresa, o dito amigo não foi. E eu me amiguei com um cara legal que conheci lá no lugar. E ainda tive que ouvir o modelete falando para o meu ficante: "Você sabe que você não é 10% do que eu sou, né?". E, como se não bastasse, passou meu telefone para um carinha com bigodinho ralo que me pediu cigarro a noite inteira. Ah. E o cara legal que eu fiquei? Descobri que tem namorada. Qualé Nosso senhor protetor dos homens idiotas??? Voltei para casa desiludida.
Conclusão: em geral, os caras que rondaram por aí em 2008 são boy putões*, tem namorada ou as duas coisas.

Para 2009? Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. E um pouquinho de malandragem da minha parte também.

*Boy putão: espécie de homem cuja definição ainda está sendo elaborada pela minha pessoa. Mas já diagnostico o tipo empiricamente. O espécime será objeto de um texto próximo...

Wednesday, December 24, 2008

Do ridículo

O amor é o ridículo da vida
A gente procura nele uma pureza impossível
Uma pureza que está sempre se pondo
Indo embora

Sorte é se abandonar e perder essa falsa ideia de paraíso que nos persegue
Bonita e breve
Como borboletas que só duram 24 horas...

(Cazuza)

Sunday, December 07, 2008

Do poema de bar

Tirando a papelada de uma bolsa, depois de bom tempo sem usá-la, acho um guardanapo amassado, versos escritos em caneta azul, a parte branca do papel suja de base (não sei como). Foi num dia frio, convidativo para as duas garrafas de vinho que deram amnésia no dia seguinte:
Somos dois oceanos
não-pacíficos
imersos em vinho
sozinhos e juntos
somos muitos
somos nós
desatados
iluminados por
faróis
de carros
somos nós
(Por um amigo depois de duas garrafas de vinho e seis meses longe de mim)

Friday, November 28, 2008

Da vida

Em um texto do seu novo livro "Doidas e Santas", Martha Medeiros diz:
"Pessoas com vidas interessantes não têm fricotes. Investem em projetos sem garantias. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida"
Comprei passagem só de ida numa loucura de amor por ele, oposto de mim. Foi o meu mais recente ato desencadeador de uma vida mais interessante. Dois anos depois, passagem só de ida de volta para casa. Sem o amor e a paixão que me moveram, mas com vários amigos (inclusive meu ex-amor que ainda é amor de outro jeito sereno) e um quase-título de mestre. Das outras coisas que Martha enumera, também ousei, passei e pensei que huuuuuuuuum, até que minha vida é interessante...
Ah, mas a passagem do tempo ainda me assusta...
mas deve ter cura.

Wednesday, November 05, 2008

Da inspiração



Eu e a escritora que fez esse blog nascer. Sim, eu e Martha Medeiros depois de uma palestra na Academia de Idéias em Belo Horizonte. Pra quem não sabe ou não leu o primeiro post, o nome deste blog é o título de uma das crônicas dela. Filosofia de pára-choque? Martha é filosofia de vida pura...

Saturday, October 18, 2008

Do incentivo

Minha irmã Quel está buscando vagas no mundo do funcionalismo público. O próximo concurso, difícil que só, disponibiliza apenas UMA vaga para a área dela. Quel falando disso com meu pai ao telefone:

- Tô estudando, né pai? Mas só tem uma vaga...
- E você precisa de quantas, minha filha?



Vai que é tuuuuuuuuuuuuuuuua, Queeeeeel!!!!!!!!!!!!!!

Sunday, October 05, 2008

Da mulher

"...As mulheres gostam que lhes digam palavras de amor. O ponto G está nos ouvidos. Inútil procurá-lo em outro lugar..."

(Isabel Allende)

Saturday, October 04, 2008

Do inferno

O inferno de Mario Prata, em O Purgatório, é feito de pessoas digitando ofícios, por 24 horas ininterruptas, em suas máquinas de escrever. As caras azuladas, cor papel-carbono, só alteram a expressão quando interpeladas pela voz de um vendedor sem noção: "Pamonhaaaaaaaaaaaaaaa de Piracicaaaaba!!!!"
Eu só mudaria uma coisa no inferno de Mario Prata. Em vez da voz irritante do vendedor de pamonhas, no meu, teria musiquinhas eleitorais. Qual o ser humano que merece ser acordado em pleno sábado de manhã, depois de uma noitada no boteco, com o jingle da Beth Pimenta? "'É a força da mulheeeeeeeer". Você vai ver a força da mulher depois do soco que eu der na sua cara, caralho! Que merda de estratégias de campanhas são essas que só deixam o eleitor irritado?
Não quero ver vocês no palanque, nem na TV, nem nos panfletos que sujam o chão da cidade, nem no som que entra na minha casa todo dia o dia inteiro, nem metamorfeseados em bonecos de Olinda, nem na puta que pariu. Mas vejo vocês no inferno, políticos de méra!

Wednesday, September 24, 2008

Do mundo acadêmico

Não é sobre, mas serve para:

Estou "esgotado de tensão nervosa para me manter contra os maus insignificantes a quem nunca fiz mal, excedido pelo trabalho que também me privou da mocidade"
João do Rio em 20 de novembramargo de 1918

Thursday, September 18, 2008

Dos canalhas

Mais uma das peças de bar. Oito mulheres numa mesa. Resumo da conversa entre todas:

Homem cafajeste é que nem cigarro: vicia, dá prazer, mas faz um mal do caraio.
Ah! E a maioria dos "homens-cigarro" são batizados com uma misturinha alucinógena...
E a mulher fica tonta, vendo coisa, enxergando um futuro que nem existe.

vai um aí?

Saturday, September 13, 2008

Do meu erro*

Eu me envergonhava
queria transferir o desmantelo
que não fosse meu,
de minha alçada;
queria dizer: esse "menino" não é meu,
é dele,
é dela,
de qualquer transeunte que passava.
Não teve jeito,
o filho-da-puta era a minha cara!

*Quase cópia de Elisa Lucinda

Sunday, September 07, 2008

Da conversa de terceiros

Pescando conversa de bar:

- Ah! Sei lá. Nem sei porque me envolvi. A gente mais se pegava do que trocava palavras..., disse a moça sobre o seu caso com um cara qualquer

- Ah! Sei lá. Nem sei porque me envolvi. A gente mais trocava palavras do que se pegava (aliás, nem nos pegamos ) , disse o moço sobre ele e a interlocutora


E quem irá dizer que existe razão...?

Wednesday, August 13, 2008

Do homem que queria ouvir “não” *

Foi Shakespeare quem disse pela primeira vez “The time is out of joint!”. Expressão intraduzível, mas que se assemelha ao nosso “O mundo está fora dos eixos!”. E o mundo está fora dos eixos! Pois ele queria ouvir um “não” dela. E talvez ele nunca consiga ouvir esse “não”, pois a gentileza brutal dela é incapaz desse ato generoso. Então ele recorre à ficção, como sempre recorreu para resolver os problemas insolúveis: desde sua timidez com poeminhas ordinários até sua frustração com monólogos entediantes. Então ele recorre à ficção para ouvir o “não”, mais precisamente ao diálogo:

– Você me deve uma conversa em particular.
– Desde quando?
– Desde aquela noite...
– O que você quer?
– Ouvir um “não”!
– Como assim?
– Sabemos que isto nunca dará certo. Mas o apaixonado super-interpreta os gestos, as atitudes, as palavras da amada. Então cada gesto seu, cada atitude sua, cada palavra sua, nisso tudo eu consigo enxergar uma esperança. Uma esperança fatalista, pois sabemos que isto nunca dará certo. Você ri de mim, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você me ignora, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você mexe um dedo, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Ah, vivo em função de você, interpretando você...
– ...
– Você não responde, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Mas você não gosta, você não gosta! São apenas ilusões da super-interpretação que afeta o apaixonado. Que faz ele continuar em velocidade máxima no caminho errado.
– Você quer ouvir um “não”, só isso?
– Sim, você precisa apenas dizer: “Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!”. Talvez depois disso eu consiga levar minha vida em paz.
– Talvez?
– É, talvez. Nunca duvidei dos seus encantos...
– Você quer ouvir...
– ...um “não”, eu quero ouvir um “não”, apenas isso!
– Mas por que você quer ouvir um “não”? Por que você não quer ouvir um “sim”?
– Você me concederia um “sim”?
– ...
– Ah, o silêncio! O mesmo silêncio que eu ouço após as minhas brincadeiras constrangedoras e verdadeiras. Mas entre nós, quem cala não consente, certo?
(E aqui se encontra o limite perigoso deste jogo, pois se é uma ficção, se ele tem o controle de tudo, então por que não terminar em happy end? Não seria justo com ela, com sua personagem, obrigá-la a falar o que ele não sabe ou o que ele não quer saber. Mas também seria justo obrigá-la a falar o “não”? Justo não, mas talvez necessário?)
– ...
– Vamos terminar essa ladainha, por favor!
– Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!

Ah, mas ele não esqueceu! Talvez por ser um “não” fictício. Pois a gentileza é brutal, a gentileza é brutal...

*Por um apaixonado...

Wednesday, August 06, 2008

De Tanathos

Navegando na internet em busca de mais conhecimento sobre Tanathos, que representa a Morte, tão mencionada no livro de Saramago que estou lendo (As intermitências da Morte), esbarrei no seguinte texto de humor refinado:

Tanathos

"Freud ensinou que os filhos taram os pais;
que nossos sonhos são manifestações, do subconsciente, de desejos reprimidos (e que desejos hein? Nooooossa!);
que o motor da vida é o sexo (Ôôôbaaaaa! Ainda bem que inventaram um super combustível para foguetes meia-vida, o Viagra Plus Premium 3D-XP-Putz, da Shellshot);
e recentemente, tomei conhecimento de um outro conceito freudiano, Tanathos, o instinto da morte que nos incita a auto-destruição!
Pô! Não acredito...!
Alguém devia ter dito a Freud que: sexo, sim; sofrimento, é o jeito; mas, auto-destruição, jamais. Afinal sexo e sofrimento são os combustíveis da vida que inspiraram o mais sábio e verdadeiro de todos os pensamentos filosóficos: 'Nóis sofre, mas nóis goza!'".

Autor original deste texto: Jotabe - www.recantodasletras.com.br/autores/jotabe

Tuesday, June 10, 2008

Do mundo de um certo Capitão Rodrigo

Diálogo entre o Pe. Lara e o Capitão Rodrigo. A história trata da formação do estado do Rio Grande do Sul e passa-se no século XIX.

-Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? - Perguntou o padre.
-Se eu fosse o dono do mundo, fazia algumas mudanças...
-Por exemplo... - pediu o padre
-Acabava com essa história de trabalhar...
-Sim, e depois?
-Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
-E depois?
-Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
-Dividia? Como? Pra quê?
-Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada negro, pra cada índio.
-Não vá me dizer que ia libertar os escravos...
-E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.
-Vosmecê é das Arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais?
-Ah, já ia m'esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.
-E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?
-Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...
-Quê mais?
-Acabava também com a velhice.
-Acabava?
-Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
-Nem morria?
-Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.
-Vosmecê não ia também acabar com as guerras?
-Bom... acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando fica tudo muito enjoado.
-Ia ser um mundo bem esquisito...
-Mas não mais esquisito que esse nosso, padre.
- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
-Mas hai muita coisa torta aí.
-Que há, há...
-Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil...
-E se dois homens desejassem a mesma mulher?
-Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola?
-Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras, e para variar, uma peleia... Não é isso?
-Mais ou menos...

In: O Continente, Érico Veríssimo.