Thursday, December 17, 2009

Dos futuros amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber...


(Chico Buarque, sempre a calhar)

a música: Futuros amantes: http://www.youtube.com/watch?v=59P64-TtOKY



Friday, December 11, 2009

"A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus (...), iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.
E brilhamos."
.
.
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(Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados)Justificar

Thursday, November 19, 2009

Do ponto final.

Ela teve uma notícia que não esperava (pelo menos nem tão cedo). Logo no dia do seu aniversário, quando coisas ruins costumam acontecer. A maldição de 2008 foi essa. Não que ela ainda pensasse ou tivesse esperanças com ele. Mas não sonhava que ele seria tão fraco a ponto de fazer o que fez. Embora todo mundo a tivesse alertado. Primeiro foi o choque. O susto. E um sonoro: "Não acredito". Nos dois dias seguintes, outras lembranças surgiram e ela foi se sentindo usada e enganada. O peito apertou de um jeito, mas não a ponto de fazê-la chorar para parar de doer. De repente, viu uma menina maltrapilha na rua e explodiu num choro convulsivo. Porque como diz uma amiga dela: "sem lesão não há pranto". Mesmo que a lesão não tenha a ver com o contexto. O choro desceu soluçado e os óculos escuros, ela deixara em casa. E nem insufilm tinha o carro para que ela pudesse desabar descontrolavalmente sem os olhares dos carros vizinhos naquele sinal que jamais abria. Era um choro de redenção, de alívio, libertador e, ao mesmo tempo, de raiva por ouvir (ouvir não, descobrir) e viver (pelo menos depois do fim e de já desapegada dele), o que todo mundo dizia que aconteceria... os tais avisos daquela época em que ela era cega de paixão e acreditava ser a exceção da regra dos casos assim. Isso porque pautava-se não na vida, nem nas palavras dos experientes amigos e da mãe, mas nas palavras dele.
Ela olhou no retrovisor e viu que seu rosto já era indisfarçável. Olhou para o lado meio embaraçada e viu que um moço fazia sinal para que ela abaixasse o vidro. Ela abaixou meio de cabeça baixa para ele não se assustar tanto com seu rosto borrado de rimel. E ele gentilmente perguntou:

- Está tudo bem?
- Vai passar... - ela disse finalmente acreditando

A trilha sonora do caso:

Sunday, November 15, 2009

Do desabafo

Reflexões de uma amiga querida que está pensando num fim próximo:

Ainda olho pra ela com meus olhos de loucura. Eu olho pra ela e vejo o "meu pra sempre".
Só sei que se a gente se separar eu tenho que encontrar uma forma de não procurar por ela em todas as outras pessoas. É isso que eu sei... porque ela é tudo que sei amar, tudo que sei admirar. Eu queria ser como ela: bonita, forte decidida. Então ela é meu caminho. E agora como faço se meus pés só decoraram os caminhos dela? Ninguém me ensinou a desdecorar uma história.

Esse desabafo foi digitado: poesia via msn. Foi das coisas mais lindas que já ouvi. Ela fala de crise, de possível separação..., mas, paradoxalmente, também quero um amor assim.
Força, amiga. É incoerente mesmo desamar amando. Mas um dia vem, todo dia, atrás do outro.

Wednesday, November 11, 2009




Recebi, neste fim de semana, a visita de Ana e Carol, duas amigas de Recife dos tempos de colégio. O presente se encheu de nostalgia. As lembranças da cidade onde eu nasci vieram boas, ganhando mais cor. ;)

Mal elas desceram no aeroporto de BH, já fomos direto para minha casa nos arrumar para a balada, pois o tempo de estada das meninas era curto. Depois de troca-trocas de brincos, roupas, sapatos, maquiagens e fofocas, chegamos no escolhido lugar. Meia hora foi suficiente para que eu comentasse tristemente:

- Minha gente, tô me sentindo um cocô nessa boate... O povo não olha pra gente! O nariz é tão em pé que o olho passa por cima da nossa cabeça. É bem diferente dos lugares mais "alterna" de BH...

Alguns minutos depois, vejo Ana conversando com um menino. Cheguei saltitante:

-Aê, Ana!!!! Um cara aqui falou contigo!!!! Tá com tudo héin?
- Não pow, é que ele derrubou minha bebida e tava pedindo desculpas...

Bom meninas, ao menos eles são educados. Da próxima, a gente dá uma passadinha antes no Alambique*. Depois de um sonoro "Ê lá em casa...", a gente vai se achando (mais!) para a dita boate onde todos são invisíveis até o álcool subir...


*Alambique: Boate de BH onde te chamam de musa do Brasileirão. Ideal para depois dum pé na bunda.

Saturday, October 31, 2009




Estou lendo o livro "A filha do canibal", da escritora espanhola Rosa Montero. O livro começa nos transportando para um cenário inusitado: a porta vai-e-vem do mictório do aeroporto, por onde Ramón, marido da protagonista Lucía, entra... e não volta. De lá, ele simplesmente evapora, desaparece (alguém já teve vontade de escapar assim?). Algumas páginas adiante, refletindo sobre a ausência do marido, Lucía descreve com maestria a vida de 99,99% dos casais da vida real:

"Mas nessa noite, na cama, aturdida pela incompreensibilidade das coisas, me surpreendi ao sentir uma dor que não experimentava desde muito antes: a dor da ausência de Ramón. Afinal, fazia dez anos que vivíamos juntos, dormíamos juntos, suportávamos nossos roncos e nossas tosses, os calores de agosto, os pés congelados no inverno. Eu não o amava, ele até me irritava, havia muito tempo que eu analisava a possibilidade de me separar, mas ele era o único a me esperar quando eu voltava de viagem e eu era a única a saber que ele friccionava minoxidil na careca todas as manhãs. A cotidianidade tem esses laços, a intimidade do ar que se respira a dois, do suor que se mistura, a ternura animal do irremediável. E naquela noite, insone e desassossegada na cama vazia, compreendi que precisava procurá-lo e encontrá-lo, que não podia descansar até saber o que lhe havia acontecido. Ramón era responsabilidade minha, não por seu meu homem, mas meu costume"

Pro trecho, cabe até trilha sonora. Chico Buarque: "Vão viver sob o mesmo teto, até que a morte os una. Até que a morte os una..."

A todos, desejo o 0,01%!


Wednesday, October 28, 2009

Da filosofia de folhetim


Eu já assistia...

Sim, eu vejo novela. Principalmente as de Manoel Carlos. Não perco uma! Embora "Viver a Vida" esteja far away da realidade, algumas cenas fogem à regra. Ontem, Alinne Morais na pele de Luciana, discutiu pela milésima vez com a madrasta da mesma idade, Helena. Julgando-se mais experiente, a personagem de Taís Araújo sabiamente falou:

- Não atropela a vida, Luciana. Deixa ela fluir...

[Plim!, ativou-se uma luzinha lá dentro]

Luciana resmungou. Mas, mesmo assim, valeu, Helena... peguei o conselho pra mim.

Monday, October 26, 2009





"Na vida e no amor, não temos garantias.Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.E nem todo sexo bom é para descartar... ou se apaixonar... ou se culpar...." (MM)


Que medo é esse de se ver só com a própria companhia?

p.s-Achei o texto na íntegra neste blog (o crédito está para Arnaldo Jabor, mas creio ser de Martha Medeiros): http://ppaiotti.nireblog.com/post/2008/07/23/sempre-acho-que-namoro-casamento-romance-tem-comeco-meio-e-fim-como-tudo-na-vida-detesto-quando-escuto-aquela-conversa

Tuesday, October 20, 2009

Da Vida*


Só vive quem passa e fica, fica e passa, pelos caminhos desse chão


Em um texto do seu novo livro "Doidas e Santas", Martha Medeiros diz:
"Pessoas com vidas interessantes não têm fricotes. Investem em projetos sem garantias. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida"

Comprei passagem só de ida numa loucura de amor por ele, oposto de mim. Foi o meu mais recente ato desencadeador de uma vida mais interessante. Dois anos depois, passagem só de ida de volta para casa. Sem o amor e a paixão que me moveram, mas com vários amigos (inclusive meu ex-amor que ainda é amor de outro jeito sereno) e um título de mestre. Das outras coisas que Martha enumera, também ousei, passei e pensei que huuuuuuuuum...
até que minha vida é interessante...

*Repostagem!!! Falta inspiração, mas nada que uma voltinha pela cidade não resolva.

Sunday, October 11, 2009

Da conquista




Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. Então fique comigo quando eu chorar, combinado? Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica, mas cozinhe. Aprecie os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate, mas de buteco. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.


Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. Goste de futebol e discuta comigo se torcemos para times diferentes. Não invente de querer muitos filhos, me carregar para a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ... Deixe eu dirigir o seu carro. Quero ver você nervoso, inquieto, (não!) olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas. Chore e eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar ... me esqueça... ou experimente me amar!

(Texto de Martha Medeiros levemente alterado para atender às minhas preferências)

Friday, October 02, 2009

Saudade do futuro
que não veio
nem passou


d e
s

man
c
h
ou

Saturday, September 05, 2009

Da cidade de São Miguel do Gostoso-RN



Mas quem vai pra lá também é pra ficar fora de área e temporariamente desligado.
Vontade de ficar assim...

Saturday, August 08, 2009

Do selinho




Esse mimo eu ganhei da Flavi (http://bonitadocepimenta.blogspot.com/)

Tarefas:

Listar 5 desejos (todos materiais)

-Um apartamento colorido e moderninho

- Um closet gigante preenchido com muitas roupas devidamente penduradas

- Estantes, muitas estantes, com livros a perder de vista, indo quase janela afora

- Um notebook pequenino e cor de rosa

- ultimamente também tenho pensado em um par de próteses (hahahaha)

Cinco características minhas:

- apaixonável

-apaixonante

-crítica

-ambiciosa

- sui generis

P.S- hoje estou me achando!

Blogs que indico:

http://grazimotta.blogspot.com

Thursday, August 06, 2009

Do soninho



Ele tem o sono leve. Acordou com o flap-flap das asinhas.

-Linda, fecha a janela.

Eram pombinhos que (também) voavam lá fora.

Friday, July 24, 2009

Do tempo



eu remoçando...

acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Do livro Pensamento do Chão, de Viviane Mosé.

Tuesday, July 21, 2009




"O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Queria se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser." (Milan Kundera)

Monday, July 06, 2009

Do fim do cigarro




Derradeira foto com cigarro na mão. Com choppinho... ainda de vez em quando.




Estou há 8 dias sem fumar. No msn, meu nick é o seguinte PaTs - 8 dias sem fumar. E assim, a cada dia, muito feliz, aumento em um dia os longos dias sem fumar. Recebi parabéns de todo mundo da minha lista msênica. Até que, claro, sou surpreendida pelo Alexandre:

Alexandre diz:
Sabe que meu amor por vc acabou, né?

PaTs- diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
pq agora uso adesivos de nicotina?

Alexandre diz:
Claro. Agora vc virou uma pessoa normal.

PaTs- diz:
Patricia-maysa encaretou

Alexandre diz:
Qual a graça de vc não fumar mais???

PaTs- diz:
nem bebendo direito eu tô mais. bom, minha pele está maravilhosa. nao acordo mais com pigarro. tenho folego p malhar...

Alexandre diz:
Sério??? Parou de beber tb?

PaTs- diz:
por enqto parei... pq se eu beber, dá vontade de fumar...

Alexandre diz:
Bom, ok, agora acabou de vez.

PaTs- diz:
daqui a algumas semanas acho q consigo beber

Alexandre diz:
Da série: como destruir um encanto em 8 dias.

Alexandre diz:
Não, falando sério. Vc vai mesmo parar de fumar? De verdade?

PaTs- diz:
uai... eu espero q sim. tô gastando 40 reais em cada caixinha de nicotina

Alexandre diz:
Nossa, que triste...

PaTs- diz:
e to me sentindo super bem. aquela fedentina de cigarro tava me estressando. Nas roupas, no cabelo...perdi a graça de fumar

Alexandre diz:
Ok, ok, eu sei que faz bem à saúde e tal. Mas, sério, eu gostava tão mais quando vc fumavaaa.... Hahahahha!Era genial. Malhava e fumava. Bebia e fumava. Tinha um charme não usual.
Bom, quando vc voltar a beber, continua convidada a vir para cá. Mas já vou avisando que eu vou sentar na mesa do bar e fumar um cigarro atrás do outro.

PaTs- diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
valeu pelo incentivo. até lá nao vou sentir mais vontade de fumar. e , ops... acho q vou adiar minha ida a brasilia...nao to preparada ainda para sentar numa mesa de fumantes

Alexandre - diz:
Sorry, pelo NÃO incentivo. Mas eu sou nouvelle vague total. E nos filmes da nouvelle vague, todas as meninas lindinhas e inteligentes fumam elegantemente... Eu sei que parece absurdo, mas eu estou verdadeiramente triste. Assim: feliz por vc. Triste por mim. É como se vc tivesse conseguido um emprego muito bom na Nova Zelândia e fosse morar lá para sempre.

Alexandre. Sempre genial. Desculpa te decepcionar, caro amigo. Mas não vou ceder ao vício não...

Wednesday, July 01, 2009

Da embriaguez como método

Mais uma da série "Peças de bar".

Diálogo que presenciei num buteco.

- Você tem um dos sorrisos mais lindos que eu conheço...
-Você diz coisas lindas quando bebe.
-Para mim a vida começa sempre depois da última dose.
-Bêbado (...) - ela disse mais baixo
- o quê?
-(...) Poeta - ela continuou com um sorriso.

Wednesday, June 24, 2009

Da literatura no bar


Eu e Martha Medeiros em BH!
.
.

É sempre a mesma coisa. Quando reencontro meus amigos e professores do mestrado no buteco, a conversa continua a mesma da sala de aula. Estávamos numa mesa de bar comemorando a defesa da minha dissertação de mestrado em estudos literários. Vindas do meu lado esquerdo, eu pescava conversas sobre assuntos gerais. Do lado direito, só ouvia literatura para cá, literatura para lá. Discussões literárias, autores literários, teóricos da literatura! O ruidinho literário da direita era emitido pelo recém mestre Pablo e o Prof. André que não cansam de "literatetear". Virei-me interrompendo:

-Gente, chega né? Vamos falar de amenidades, por favor.
- Tá bom. Amenidades.

[Silêncio-sepulcral-constrangedor do lado direito da mesa]

Bom, me conformei que pedi demais e deixei os dois para lá. Fui fofocar com minha amiga do lado esquerdo (do peito) que não via há seis meses. Pausa na fofoca (...) escuto o nome "Martha Medeiros" e o prof. André descendo a lenha. Para quem não sabe, sou fã da escritora gaúcha Martha Medeiros e o nome do meu blog é o mesmo de uma das crônicas dela. Voltei-me pro lado direito e entrei na discussão. Eu defendia a Martha, André replicava. No meio do furdunço, minha amiga da esquerda me interrompeu com um novo babado. Encerrados os comentários em torno do bafão, estiquei logo o ouvido esquerdo para o lado direito da mesa. A conversa já estava em Duras e mais uma penca de escritores franceses. Apelei:

-Ah, não! Literatura de novo???
- Não, Patrícia. Antes estávamos falando de Martha Medeiros. Agora é que começamos a falar de LI-TE-RA-TU-RA! - respondeu, triunfante, o professor André

Tive que engolir seco o vinho que já era seco. Não veio resposta. Tá bom, vai... a tirada dele foi genial.
Mas André, você me paga! Já estou elaborando uma piadinha aqui sobre o Camus.

Wednesday, June 10, 2009

Da dor que dói mais



Escrevi num post abaixo que a dor que dói mais é a da saudade, a dor de nunca mais saber de quem se ama... Dor emocional que também pode se manifestar no corpo. Mas ontem presenciei o oposto: uma dor física que irradiou na alma.

Acordei cedinho com minha irmã que gemia baixinho. Era cólica renal, decorrente de cálculo nos rins. Aquela dor que dizem ser pior que a de parto. Corri com ela para o hospital. Quel repetia "por favor, chega logo! Meu Deus, não tem posição que ajude a melhorar essa dor". E se revirava de um lado para o outro no táxi. Chegamos no Lifecenter, hospital conveniado de Belo Horizonte, e enquanto ela, pálida, se estirou no chão pedindo por favor para ser medicada, a recepcionista falava que, antes de encaminhá-la para a enfermaria, eu teria que preencher um cadastro.

-Não "sente" a dor dela? Deixa eu ir com ela até a enfermaria? Volto aqui e preencho depois - pedi
-Tem que preencher a ficha primeiro. Posso chamar uma enfermeira para ir com ela.
-Então chama, ué!

A enfermeira não aparecia. E minha irmã continuava no chão. Até que, sem querer, uma mocinha de branco apareceu. Gritei: "Enfermeira, ajuda a minha irmã aqui". E foram-se as duas escada abaixo. Eu continuei no balcão com a caneta na mão preenchendo a merda da ficha, a cabeça pensando mil palavrões e o coração doendo. Continuei:

- É um absurdo como vocês lidam com uma pessoa que visivelmente está sentindo tanta dor.
- É o protocolo... - falou a recepcionista virando as costas.

Dez minutos depois, cheguei na enfermaria e minha irmã ainda gemia de dor. Não tinha sido medicada ainda! Até que o médico apareceu. Apertou daqui, apertou dali e foi fazer a prescrição do analgésico: o nosso familiar buscopan. Ele ainda escrevia cinco minutos depois. Até que minha irmã perguntou: "Cadê, cadê o remédio?"

-Dr. não dá para agilizar o medicamento? Já tem 30 minutos que estamos aqui... - eu disse
- Estou preenchendo - disse-me olhando com a sobrancelha levantada e apontando para o papel.

Depois de feita, a enfermeira levou a receita até a farmácia, o que demorou mais de dez minutos. Depois ela preparou a seringa. Mais cinco minutos. Ou seja, desde que chegamos no hospital foram mais de 45 minutos para que fosse finalmente injetado buscopan na veia da minha irmã. Imaginem o que são 45 minutos para uma pessoa com cólica renal...! Menos de um minuto depois da droga ser injetada no sangue, ela não sentia mais dor.

E eu sentia a indeferença no rosto, no andar, na fala de cada um que nos rodeava. A dor, para eles, é sim algo corriqueiro. Só que acaba parecendo mercadoria barata mal paga pelos convênios. Voltei para casa meio anestesiada. Sozinha no quarto, comecei a pensar em tudo que ocorreu naquela manhã. Espontaneamente, explodi num choro convulsivo. Soluçava de raiva deles, de pena da minha irmã, de desilusão... Mais uma vez lidei com gente que não sabe acolher. E percebi que a dor que dói mais é a dor decorrente da banalização da dor que dói nos outros. Eu vi, de perto, a desumanização da saúde.

IMPORTANTE:

P.S- Esse texto é baseado no que eu presenciei. Não estou generalizando em relação à classe médica. Como a sociedade em geral, entre os médicos, também têm de tudo... Entendo como os convênios banalizam o trabalho desses profissionais ao pagarem uma quantia que não vale o trabalho que executam. Como diz um amigo meu médico: "Tem gente que gasta 300 reais no salão e ainda reclama do quanto paga numa consulta. Você tem noção do quanto a gente trabalha? E da importância do nosso trabalho?". Tenho sim, meus pais são (bons) médicos. Mas nada disso justifica a postura dos funcionários do Lifecenter. O sistema de saúde tá errado. Mas em quem tá doendo, não é justo fazerem doer mais.