Tuesday, April 21, 2009

Da música



E eu que não costumava usar Ipod, colei música nos ouvidos nos últimos dois dias.
Não é que as ruas ficaram bem mais bonitas com trilha sonora?

Monday, April 20, 2009

Do filho do autor

Ontem, mal humorada e a muito custo, abri o livro para estudar. "Tudo que é sólido desmancha no ar", uma análise da modernidade feita por Marshall Berman. Ainda no prefácio, no último parágrafo dele, meu coração ficou do tamanho de uma jujuba:
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"Logo depois de terminado este livro, meu filho bem amado, Marc, de cinco anos, foi tirado de mim. A ele eu dedico Tudo que é sólido desmancha no ar. Sua vida e sua morte trazem muitas das idéias e temas do livro para bem perto: no mundo moderno, aqueles que são mais felizes na tranquilidade doméstica, como ele era, talvez sejam os mais vulneráveis aos demônios que assediam esse mundo. (...) Manter essa vida exige talvez esforços desesperados e heróicos, e às vezes perdemos. Ivan Karamazov diz que, acima de tudo o mais, a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o seu bilhete de entrada. Mas ele não o faz. Ele continua a lutar e a amar; ele continua a continuar" (BERMAN, 1981, p.14). Essa última frase grifei até furar a página.
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Já fechei o livro ainda no início (como bem podem comprovar na página da citação) e fui pesquisar sobre o Berman e seu filho. Me encantei pelo teórico e seu otimismo. Sobre Marc, segundo o comentário de uma duvidosa menina em um blog, parece que ele caiu da janela. O que não deixa de fazer sentido de acordo com a dedicatória. Para além de interpretações de cunho histórico e econômico como fez Marx em seu Manifesto Comunista - lugar da frase que dá título ao livro do Berman - o caso ilustra bem como, hoje em dia, mais do que nunca, Tudo que é sólido desmancha no ar. Contraditoriamente, o que deve ser fixo, rijo e certo, num instante vai-se embora: a vida, de uma hora pra outra. "A rotina diária dos parques e bicicletas, das compras, do comer e limpar-se, dos abraços e beijos costumeiros, talvez não seja infinitamente bela e festiva, mas também infinitamente frágil e precária" (BERMAN, 1981, p.14)
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Depois desse trecho e da pesquisa na internet, devorei o livro. Também recomendo as páginas depois do prefácio. Analítico sem ser chato, o livro é feito com sensibilidade. Mais um caso em que o sólido se desmancha no ar.

Friday, April 17, 2009

Da saudade, da saudade...

Eu e meu amigo publicitário Bê Sant'anna falávamos hoje sobre saudade. No seu blog (http://besantanna.blogspot.com/), ele escreveu que "A saudade longe é difícil. A saudade perto é phoda". Minha primeira reação diante dessa frase que parece mais não é paradoxal, foi uma cara de "hã?". Mas depois, por experiência própria, entendi o que de tão lindo Bê disse. Para mim, ele quis dizer o que escrevi logo ali embaixo, uma frase da crônica de Martha Medeiros, que eu lembrei quando senti... e ainda sinto: "Saudade é não querer saber e, ainda assim, doer". E é bom viver para entender coisas assim, de uma dor que substitui outra, como essa saudade que a gente escolhe ter esperando que o tempo apague o que antes doía, mas não era saudade...
Essa, sem dúvida, é mais phoda que a geográfica saudade de quem, inevitavelmente, está longe. Saudade longe tem cura alegre. Saudade perto machuca até ir embora.
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Coloco em seguida mais um trecho dessa crônica da Martha que, como bem disse Bê, "'É isso":
(...)A saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
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P.S- No Blog da Mari (http://passagemparabelem.blogspot.com/), tem a crônica na íntegra. Três blogs linkados pelas cabecinhas aí do lado, como fofamente diz a Mari em um post seu, e pelo tema saudade...

Wednesday, April 15, 2009

Da gula compartilhada


Não dá para ver, mas, na mesa, restinhos de filé empanado com molho de gorgonzola
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Depois de uma temporada na Europa, meu amigo Klaus decidiu controlar a alimentação, achando que ganhou quilinhos a mais fora do Brasil. Também pudera, já viajei com o Klaus e vi que ele é dos meus... tem alma de gordo! Difícil resistir a uma fritura, fast food, pizza com um metro de recheio e tantão de queijo que, puxado pelo garfo, tem uma elasticidade que vai no teto (ai, lembrei da de palmito da Pizzaria Guanabara!) e todas essas besteiras que fazem o acúmulo suado de exercícios físicos constantes irem para o saco num único feriado em que saímos da rotina.






Para se ter uma idéia, nosso cardápio numa manhã carnavalesca na praia de Ipanema:





  • antes de chegar na praia, paradinha na lanchonete para um enrolado e coca normal (no feriado coca normal pode)


  • já na praia de Ipanema, (muita) cerveja, milho cozido, queijo na brasa, biscoito O Globo, Castanha de caju (ou seja, tudo que passou pela nossa barraca)


  • No caminho para a praia do Leblon, R$ 7,50 no sorvete magno de doce de leite transportado no carrinho, por isso mais caro. E condeno o Klaus por ter me aplicado nesse magnífico sorvete, hoje mais uma tentação a resistir.


  • Na praia do Leblon, alguns coliformes fecais que provavelmente ingerimos durante o mergulho que não deveríamos ter dado.

Enfim, Klaus voltou da Europa decidido a fazer dieta. Telefona e me chama para um açaí. Penso: "Poxa, tá saudável mesmo". Acordei com essa ligação dele, fome danada, fazendo jus à comunidade mais bem bolada do orkut "comer dá sono e dormir dá fome". Numa vontade sem igual de comer Mac, pensei comigo mesma sugerir a comida do Ronald convicta, claro, de que ele não ia negar (era domingo. No domingo pode). Saio da portaria, vejo-o na janela do carro acenando e dali mesmo grito: "Quero Mac!!!". Ele gritou de volta: "Ah, não!". Penso no trajeto portaria-carro do Klaus: "Poxa, ele tá determinado mesmo". Mas ao entrar no possante, fechando ainda a porta, escuto: "Animo da gente comer na Mac e depois ir na easy ice comer o açaí". Rá! Esse é o Klaus. Somos nós, aliás.





P.S- Na fila da Mac, com vontade de Mac Duplo, mas querendo a maionese do Mac Chicken, fiquei com preguiça do martírio da dúvida hamletiana... e pedi os dois. Klaus, querido amigo médico, um apelo! Se quiser continuar sendo meu amigo, mude de especialidade. Cirurgia Plástica, por favor. Nesses tempos em que temos andado juntos, o sol tem brilhado mais e as noites têm sido mais iluminadas. Mas a lua cheia não precisa brilhar na minha cara !




Saturday, April 11, 2009

Dos conceitos

Fazer um mestrado em busca de mais conhecimento. Esse foi o meu propósito maior. Nem sabia (e continuo não sabendo) se iria enveredar pelos hoje-sei-tortuosos caminhos acadêmicos. Escolher o curso de Letras, foi no intuito mesmo de ampliar o saber, adentrando noutro universo das ciências humanas que não o da minha graduação, o jornalismo. Mas as coisas não foram tão românticas como eu imaginava. Penderam mais para o deprimido poema do Beco* de Bandeira ou para um desaforado Gregório de Matos, quando da melancolia e desânimo eu atravessava para a fúria emitindo impropérios pela minha boca que mais parecia do inferno.
Além do trio de professores tiranos que o levado destino me aplicou, a teorização de determinados conceitos me irritavam profundamente.
O QUE É LITERATURA?
Eu pensava cá comigo "sei lá, porra", sentada, dura, numa cadeira pra mim elétrica, com aquela stalinista de sotaque venezuelano me encarando com um fuzil nos olhos e fazendo essa pergunta idiota. Depois fui pensando meu conceito e, como jornalista, já tenho um pronto: "Literatura é escrever sem apurar" e ponto final.
Me irritava mais ainda as teorizações sobre a diferença entre autor e narrador, as discussões sobre a morte do autor (af!) e qualquer outra bobajada que me fez, por dois anos, não ler um livro levemente... como eu lia antes do mestrado. Tentar fazer da literatura uma ciência? Então tirem a graça dela como bem o fizeram nesse programa de pós-graduação (não sei dos outros pelo Brasil, falo da minha experiência)!
E naquele tempo de teorias "profundas" ia me dando saudades da aurora da minha vida, minha infância, quando eu tinha só que responder perguntas do tipo:
- O que é o vento, Patrícia?
-É o ar em movimento, professora.
Resposta simples e direta. Mas que pelo menos faz um sentido danado.
*O poema do Beco para quem não conhece:
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco
(Manuel Bandeira)

Tuesday, April 07, 2009

Do Harold

Querido amigo,

Ontem, 6 de abril, pensei muito em você. Tentei ligar, mas acredito que o telefone salvo na agenda está desatualizado. Mas já prestes a dormir, alta madrugada, triste por não ter conseguido falar com você, tive a idéia de registrar no meu blog os parabéns e o carinho que sinto.
Para quem não conhece o Harold, aproveito para apresentar no meu espaço. Amigo desde a quinta série, peça rara do naipe fundão, hoje pai de uma menina que tem nome de prima-irmã. Mesmo ele deixando o colégio na sexta série, um ano de convivência foi suficiente para uma cumplicidade sem fim...
O que mais me encanta nele, é a amizade leal. Estivesse eu em Recife, Brasília, BH ou Rio Grande do Sul, ele sempre deu um jeito de me encontrar e ligar nas datas especiais: aniversário e natal. Eu também tento, Harold. Mas embora jornalista, não tenho esse seu faro detetivesco. Mas saiba que não passei nenhum 6 de abril sem pensar em você. E assim vai mais de uma década de amizade em que não deixamos de nos falar um ano sequer. Ainda bem que hoje em dia temos a tecnologia diminuindo fronteiras e saudade, embora a saudade nunca mude. E também proporcionando a chance de burlar a minha falta nos anos em que deixei de ligar: tá aqui carimbado e declarado nesse texto singelo, postado no dia 7 de abril, que eu nunca me esqueço.
E, por favor, me mande seus números de telefone.
Com amor todos os dias... 6, 7, 8, 9... de todos esses anos e dos que virão,
Pati.

Monday, April 06, 2009

De ultimamente

Suldades.

Suldades do que foi bom
naquele lugar longe que, agora de longe, sinto casa.
Do outono e da primavera lá
e de quem faz suldade existir.
Uma ponta de saudade de mim
antes de tanta suldade sentir
P.S-
virei oitenta por cento de ferro na alma...
Só que, pra mim, Santa Maria (ainda) é mais que um retrato na parede
Mas, tal qual Drummond, como dói...
Parodoxal?
Sentir suldade também é.

Tuesday, March 24, 2009

Do(s )ato(s)

sem paixão, nem um chicabom...

Nelson Rodrigues

Monday, March 23, 2009

Da saudade de novo...

Saudade é não querer saber e, ainda assim, doer...

Monday, March 09, 2009

Do calafrio

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
do bem que ele me faz
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
do bem que ele me faz
(O meu amor - Chico Buarque)

Adoro essa música e como ela descreve os sentidos!
Salve Chico!

Monday, March 02, 2009

Da conquista

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. Então fique comigo quando eu chorar, combinado? Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica, mas cozinhe. Aprecie os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate, mas de boteco. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. Goste de futebol e discuta comigo se torcemos para times diferentes. Não invente de querer muitos filhos, me carregar para a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ... Deixa eu dirigir o seu carro. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas. Fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar ... me esqueça... ou experimente me amar!

(Texto de Martha Medeiros levemente alterado para atender às minhas preferências)

Thursday, February 19, 2009

De uma mente com lembranças

Não. Ele não é meu.
Nunca se apercebeu de meu sorriso triste
o mesmo nas tantas despedidas
que aparecia no rosto com o medo da falta de zelo

E isso só em mim
Doía ver-te ir embora sem me dar teu amanhã
fazendo todas as noites parecerem a última.

Tu também não 'via' que meu olho brilhava era de dúvida
de raiva
pelo apego incoerente
de querer quem me maltrata por dentro

Você nunca esteve por horas e horas
Nem me alimentou com promessas
O que foi nobre
não me iludo.
definho sem brilho
cansada do efêmero que é,
que foi
e não será.

E eu que já consigo gostar de mim
e tentando não me render,
vou me consumindo
na eterna incoerência hilstiana de desamar, amando
quem nunca me amou.
E (me) lembrando-te, fazedor de desgosto,
Que um dia te apago de mim.

Tuesday, February 10, 2009

Da minha descrição...

... segundo um amigo jornalista de Brasília:


"Desembarcando em Brasília, toda vestida de preto, como se tivesse acabado de desembarcar em Helsinque, indo para a esquerda errada"...

"vc vê novela loucamente, lê graciliano ramos, consegue beber feito um gambá, fica loucamente feliz com um saco de balinhas e faz manha quando quer uma coisa, cozinha (!?), consegue ser interessante e engraçada. e às vezes grossa e injusta (hehehe...), ou seja, uma caixinha de surpresas. não consigo colocar vc nos meus tubos de ensaio, got it?"

Tuesday, February 03, 2009

Da conversa "amigável"

No msn conversando com um amigo. Ele, mestre em sutilezas, adora escrever gracinhas sobre a minha cutis branquela-européia. E eu revido falando da sua tonalidade afro. Eis o diálogo:


Bob diz:
cara de máááááármore!
PaTs- diz:
cara de buchada de bode
Bob- diz:
Albina
Bob- diz:
hahahahaha
PaTs- diz:
coitá docê
Bob diz:
Tapiocu
Bob diz:
cara de bunda com pó de arroz
Pats diz:
Af!
Bob diz:
Ah, vai estudar, cara lavada de água oxigenada!
PaTs- diz:
burro piolhento
PaTs- diz:
nao evoluiu junto com a especie
Bob diz:
E tu que é uma esquimó que não pode nem andar pelada na neve se não te perdem...
PaTs- diz:
crime perfeito: te matar e jogar num monte de merda. nunca vao achar o corpo.
Bob diz:
esconderijo perfeito: esconde no armarinho do banheiro, todo mundo vai achar que é uma mini bolinha de algodão
PaTs- diz:
que bonitinhoooooo
PaTs- diz:
vou copiar e botar no orkut
Bob diz:
vou cobrar
PaTs- diz:
melhor : vo botar no blog nossa conversa
Bob diz:
e eu vou te cobrir de porrada pra ver se você fica parecendo um algodão menstruado
PaTs- diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
PaTs- diz:
isso vai entrar tb
Bob diz:
Vou te mostrar o que vai entrar, OMO.

A gente se "ofende" soltando risos cada qual atrás da sua tela. E quando encontra, é que nem brother: E aí, veado, beleza?
Sim, dá para brincar com coisa séria e deixar o tabu mais leve.
Pela paz inter-racial!

Monday, January 26, 2009

Do filme O Curioso Caso de Benjamin Button

Assisti ontem. Desde que passou o trailer no cinema quando fui ver Vicky Cristina Barcelona (Sensacional! Woody Allen, sou suspeita em opinar), achei a idéia do filme interessantíssima. Um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar do tempo. Alguém, cujo relógio da vida anda ao contrário. Imediatamente lembrei daquele texto atribuído ao Chaplin que já muito circulou na internet... e que diz mais ao menos que o ciclo da vida é injusto. Devíamos primeiro morrer logo para ficar livre disso duma vez. Envelhecer, ficar jovem, criança e voltar para o útero da mãe onde tudo terminaria num orgasmo. A originalidade rende uma bela reflexão. Por que não um belo filme? Nada. Depois de quase três horas sentada, quando as luzes acenderam, virei para a cadeira de trás onde estava a minha mãe e disse: Odiei! Ela: eu também, com cara de sono. Flagrei mainha dormindo quando, lá pelas tantas do filme, o Brad Pitt aparece tal como ele é, lindo e jovial, cachecol esvoaçante, em cima de uma moto. Virei com o sorrisão no rosto para mainha que, para minha decepção, nessa hora dormia. Perdeu o melhor do filme: o Brad Pitt quando fica gato.
O longa é ruim porque cheio de clichês. A começar, a história é narrada a partir do diário do Benjamin que vai parar nas mãos da sua amada. Esta, bem velha, se encontra no leito de hospital, à beira da morte, enquanto ouve a filha ler as páginas e vai rememorando, saudosa, os dias que passou ao lado da grande paixão da sua vida (Titanic sem navio?). Além do clichê de se encontrar moribunda, o filme resgata a pieguice do amor único e eterno, tão combalido nos dias de hoje. Dá vontade de levantar e ir embora numa das cenas finais. Não vou contar porque pode ser que alguém se atreva a ir ver o filme. Mas dou uma dica: se passa na janela do hospital.
Eu ontem bem que sugeri a mainha para vermos "Queime depois de ler". E quase fomos. Cheguei a ouvir ela perguntando pro seu namorado: "Por que não vamos assistir o filme que a Pati disse, 'Rasgue e Jogue Fora?'". Quem conhece minha mãe, sabe como ela é mestre em trocar os nomes das coisas. Pelo menos em Queime depois de ler, se for ruim (não vi ainda), ela não correria o risco de perder a única parte boa do filme... Neste, Brad Pitt está lindo e jovem o tempo todo.

Friday, January 16, 2009

Do paradoxo

Eu me odeio por me importar com você.

Wednesday, December 31, 2008

De 2008

Balanço sentimental de 2008.

Fim de namoro tipo casório logo no início do ano. Sozinha com muitas garrafas de champagnhe, perdida no Rio Grande, minhas amigas de férias em suas respectivas cidades. Mas quando voltaram, ao lado delas, baladeiras e solteiras, o resultado não podia ser outro senão badalação. Primeiro dia na night totaly alone, vestido decotado da Rebeca, ainda mais ousado no meu quadril tiquinho maior que o dela, rumamos para o Coyo, a nossa boate favorita no primeiro semestre.

Homem bonito não faltava. Mas estava desacostumada com a calhordice dos machos depois de 3 anos com um homem decente. Procurando o toquinho da Rebeca que estava chorando atrás do balcão (para desespero dos garçons) em busca da cartela que estava na minha bolsa, esbarrei com um cara lindo, camisa branca de botão e manga comprida, um pouco aberta, mas sem ser peão. Depois de uma conversa básica, ficamos. Mas ele acabou confessando que tinha namorada e começou a falar do quão ruim estava seu relacionamento. Mas de psicóloga passei a paciente. Comecei a chorar falando que tinha acabado de terminar meu namoro. E fui pra casa de cara borrada.

Depois, no mesmo Coyote, encontrei um cara bonito e bacana. Ele trabalhava lá e sempre saía pela porta dos fundos quando estavam no lugar mais de uma menina que ele costumava ficar. "Graças a Deus existe aquela porta da cozinha", confessou numa noite. Mas eu achava graça. Ele sabe. Éramos Tomas e Sabina. E eu voltava para casa de sorriso no rosto.
No meio tempo teve o jornalista legal que só conhecia de vista e com o qual conversei virtualmente. As palavras dele me fizeram chegar a seguinte conclusão: "Porra, acho que meu destino é casar com um jornalista. Eles tem a manha do que escrever". Os textinhos no preto e branco do msn ficavam coloridos a cada resposta dele. Contei os dias para encontrá-lo. Ele não mora mais em BH e aqui veio umas duas semanas depois das conversas virtuais. Escolhi um lugar romântico e me vesti que nem moça para casar. Vestidinho amarelo florido até o joelho. Bolsinha creme, tom sobre tom. Sandália alta, lógico. Louca para ouvir frases coloridas. Mas na mesa só pensava na música relicário: "O que está acontecendo? Milhões de frases sem nenhuma cor". Peraí. Milhões? Não. Ele não falava. E enquanto eu tentava puxar conversa, ele dormiu duas vezes sentado na mesa com velas e garrafas de vinho. Ow, calma aí. Não era para dormir. Resultado: voltei para casa frustrada. De novo.

O outro jornalista, "meu futuro marido" nas palavras da minha grande amiga enganada, também rendeu apelos a Nosso Senhor protetor dos homens idiotas. Depois do estilo namoradinho perfeito, se revelou. Num bar, um colega em comum com muita cachaça na cachola chegou em mim. O amigo do "meu futuro marido", nobremente, tomou as dores. Mas, para meu espanto, o pretendente colocou a culpa em mim. Será que minha calça saruel tava muita justa? E ainda tive que escutar meu primo gaiato cantar Vander Lee no violão o dia inteiro seguinte: "Morro de saudade, A CULPA É SUA". Sem contar que saí dirigindo transtornada e detonei o carro em duas pilastras que apareceram no meio da garagem. Voltei para casa com prejuízo financeiro de mil reais. E afetivo de um amigo e um pretendente a menos.

E, por último, o meu ex-amigo modelete com o qual nunca tive pretensões maiores. Desde a época da faculdade, eu dizia em relação a ele: "Lindo, mas nunca pegaria". Só que, um dia, depois de um enterro e vontade sem igual de curtir a vida, estava doida para sair. Percorri toda a minha agenda telefônica. Os amigos le(g)ais não estavam disponíveis. Contrariada, fui ver televisão. Efeito Borboleta. Me aparece Ashton Kushner na tela. Lembrei do modelete que com ele se parece. Estávamos combinando de encontrar desde que voltei para a capital mineira, mas sem segundas intenções. Pelo menos da minha parte. Entrei em contato com ele que ia para um lugar com um amigo. "Opa, pelo menos vai um amigo. Nada de esquema então", conclui. Mas para minha bela surpresa, o dito amigo não foi. E eu me amiguei com um cara legal que conheci lá no lugar. E ainda tive que ouvir o modelete falando para o meu ficante: "Você sabe que você não é 10% do que eu sou, né?". E, como se não bastasse, passou meu telefone para um carinha com bigodinho ralo que me pediu cigarro a noite inteira. Ah. E o cara legal que eu fiquei? Descobri que tem namorada. Qualé Nosso senhor protetor dos homens idiotas??? Voltei para casa desiludida.
Conclusão: em geral, os caras que rondaram por aí em 2008 são boy putões*, tem namorada ou as duas coisas.

Para 2009? Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. E um pouquinho de malandragem da minha parte também.

*Boy putão: espécie de homem cuja definição ainda está sendo elaborada pela minha pessoa. Mas já diagnostico o tipo empiricamente. O espécime será objeto de um texto próximo...

Wednesday, December 24, 2008

Do ridículo

O amor é o ridículo da vida
A gente procura nele uma pureza impossível
Uma pureza que está sempre se pondo
Indo embora

Sorte é se abandonar e perder essa falsa ideia de paraíso que nos persegue
Bonita e breve
Como borboletas que só duram 24 horas...

(Cazuza)

Sunday, December 07, 2008

Do poema de bar

Tirando a papelada de uma bolsa, depois de bom tempo sem usá-la, acho um guardanapo amassado, versos escritos em caneta azul, a parte branca do papel suja de base (não sei como). Foi num dia frio, convidativo para as duas garrafas de vinho que deram amnésia no dia seguinte:
Somos dois oceanos
não-pacíficos
imersos em vinho
sozinhos e juntos
somos muitos
somos nós
desatados
iluminados por
faróis
de carros
somos nós
(Por um amigo depois de duas garrafas de vinho e seis meses longe de mim)

Friday, November 28, 2008

Da vida

Em um texto do seu novo livro "Doidas e Santas", Martha Medeiros diz:
"Pessoas com vidas interessantes não têm fricotes. Investem em projetos sem garantias. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida"
Comprei passagem só de ida numa loucura de amor por ele, oposto de mim. Foi o meu mais recente ato desencadeador de uma vida mais interessante. Dois anos depois, passagem só de ida de volta para casa. Sem o amor e a paixão que me moveram, mas com vários amigos (inclusive meu ex-amor que ainda é amor de outro jeito sereno) e um quase-título de mestre. Das outras coisas que Martha enumera, também ousei, passei e pensei que huuuuuuuuum, até que minha vida é interessante...
Ah, mas a passagem do tempo ainda me assusta...
mas deve ter cura.

Wednesday, November 05, 2008

Da inspiração



Eu e a escritora que fez esse blog nascer. Sim, eu e Martha Medeiros depois de uma palestra na Academia de Idéias em Belo Horizonte. Pra quem não sabe ou não leu o primeiro post, o nome deste blog é o título de uma das crônicas dela. Filosofia de pára-choque? Martha é filosofia de vida pura...

Saturday, October 18, 2008

Do incentivo

Minha irmã Quel está buscando vagas no mundo do funcionalismo público. O próximo concurso, difícil que só, disponibiliza apenas UMA vaga para a área dela. Quel falando disso com meu pai ao telefone:

- Tô estudando, né pai? Mas só tem uma vaga...
- E você precisa de quantas, minha filha?



Vai que é tuuuuuuuuuuuuuuuua, Queeeeeel!!!!!!!!!!!!!!

Sunday, October 05, 2008

Da mulher

"...As mulheres gostam que lhes digam palavras de amor. O ponto G está nos ouvidos. Inútil procurá-lo em outro lugar..."

(Isabel Allende)

Saturday, October 04, 2008

Do inferno

O inferno de Mario Prata, em O Purgatório, é feito de pessoas digitando ofícios, por 24 horas ininterruptas, em suas máquinas de escrever. As caras azuladas, cor papel-carbono, só alteram a expressão quando interpeladas pela voz de um vendedor sem noção: "Pamonhaaaaaaaaaaaaaaa de Piracicaaaaba!!!!"
Eu só mudaria uma coisa no inferno de Mario Prata. Em vez da voz irritante do vendedor de pamonhas, no meu, teria musiquinhas eleitorais. Qual o ser humano que merece ser acordado em pleno sábado de manhã, depois de uma noitada no boteco, com o jingle da Beth Pimenta? "'É a força da mulheeeeeeeer". Você vai ver a força da mulher depois do soco que eu der na sua cara, caralho! Que merda de estratégias de campanhas são essas que só deixam o eleitor irritado?
Não quero ver vocês no palanque, nem na TV, nem nos panfletos que sujam o chão da cidade, nem no som que entra na minha casa todo dia o dia inteiro, nem metamorfeseados em bonecos de Olinda, nem na puta que pariu. Mas vejo vocês no inferno, políticos de méra!

Wednesday, September 24, 2008

Do mundo acadêmico

Não é sobre, mas serve para:

Estou "esgotado de tensão nervosa para me manter contra os maus insignificantes a quem nunca fiz mal, excedido pelo trabalho que também me privou da mocidade"
João do Rio em 20 de novembramargo de 1918

Thursday, September 18, 2008

Dos canalhas

Mais uma das peças de bar. Oito mulheres numa mesa. Resumo da conversa entre todas:

Homem cafajeste é que nem cigarro: vicia, dá prazer, mas faz um mal do caraio.
Ah! E a maioria dos "homens-cigarro" são batizados com uma misturinha alucinógena...
E a mulher fica tonta, vendo coisa, enxergando um futuro que nem existe.

vai um aí?

Saturday, September 13, 2008

Do meu erro*

Eu me envergonhava
queria transferir o desmantelo
que não fosse meu,
de minha alçada;
queria dizer: esse "menino" não é meu,
é dele,
é dela,
de qualquer transeunte que passava.
Não teve jeito,
o filho-da-puta era a minha cara!

*Quase cópia de Elisa Lucinda

Sunday, September 07, 2008

Da conversa de terceiros

Pescando conversa de bar:

- Ah! Sei lá. Nem sei porque me envolvi. A gente mais se pegava do que trocava palavras..., disse a moça sobre o seu caso com um cara qualquer

- Ah! Sei lá. Nem sei porque me envolvi. A gente mais trocava palavras do que se pegava (aliás, nem nos pegamos ) , disse o moço sobre ele e a interlocutora


E quem irá dizer que existe razão...?

Wednesday, August 13, 2008

Do homem que queria ouvir “não” *

Foi Shakespeare quem disse pela primeira vez “The time is out of joint!”. Expressão intraduzível, mas que se assemelha ao nosso “O mundo está fora dos eixos!”. E o mundo está fora dos eixos! Pois ele queria ouvir um “não” dela. E talvez ele nunca consiga ouvir esse “não”, pois a gentileza brutal dela é incapaz desse ato generoso. Então ele recorre à ficção, como sempre recorreu para resolver os problemas insolúveis: desde sua timidez com poeminhas ordinários até sua frustração com monólogos entediantes. Então ele recorre à ficção para ouvir o “não”, mais precisamente ao diálogo:

– Você me deve uma conversa em particular.
– Desde quando?
– Desde aquela noite...
– O que você quer?
– Ouvir um “não”!
– Como assim?
– Sabemos que isto nunca dará certo. Mas o apaixonado super-interpreta os gestos, as atitudes, as palavras da amada. Então cada gesto seu, cada atitude sua, cada palavra sua, nisso tudo eu consigo enxergar uma esperança. Uma esperança fatalista, pois sabemos que isto nunca dará certo. Você ri de mim, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você me ignora, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você mexe um dedo, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Ah, vivo em função de você, interpretando você...
– ...
– Você não responde, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Mas você não gosta, você não gosta! São apenas ilusões da super-interpretação que afeta o apaixonado. Que faz ele continuar em velocidade máxima no caminho errado.
– Você quer ouvir um “não”, só isso?
– Sim, você precisa apenas dizer: “Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!”. Talvez depois disso eu consiga levar minha vida em paz.
– Talvez?
– É, talvez. Nunca duvidei dos seus encantos...
– Você quer ouvir...
– ...um “não”, eu quero ouvir um “não”, apenas isso!
– Mas por que você quer ouvir um “não”? Por que você não quer ouvir um “sim”?
– Você me concederia um “sim”?
– ...
– Ah, o silêncio! O mesmo silêncio que eu ouço após as minhas brincadeiras constrangedoras e verdadeiras. Mas entre nós, quem cala não consente, certo?
(E aqui se encontra o limite perigoso deste jogo, pois se é uma ficção, se ele tem o controle de tudo, então por que não terminar em happy end? Não seria justo com ela, com sua personagem, obrigá-la a falar o que ele não sabe ou o que ele não quer saber. Mas também seria justo obrigá-la a falar o “não”? Justo não, mas talvez necessário?)
– ...
– Vamos terminar essa ladainha, por favor!
– Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!

Ah, mas ele não esqueceu! Talvez por ser um “não” fictício. Pois a gentileza é brutal, a gentileza é brutal...

*Por um apaixonado...

Wednesday, August 06, 2008

De Tanathos

Navegando na internet em busca de mais conhecimento sobre Tanathos, que representa a Morte, tão mencionada no livro de Saramago que estou lendo (As intermitências da Morte), esbarrei no seguinte texto de humor refinado:

Tanathos

"Freud ensinou que os filhos taram os pais;
que nossos sonhos são manifestações, do subconsciente, de desejos reprimidos (e que desejos hein? Nooooossa!);
que o motor da vida é o sexo (Ôôôbaaaaa! Ainda bem que inventaram um super combustível para foguetes meia-vida, o Viagra Plus Premium 3D-XP-Putz, da Shellshot);
e recentemente, tomei conhecimento de um outro conceito freudiano, Tanathos, o instinto da morte que nos incita a auto-destruição!
Pô! Não acredito...!
Alguém devia ter dito a Freud que: sexo, sim; sofrimento, é o jeito; mas, auto-destruição, jamais. Afinal sexo e sofrimento são os combustíveis da vida que inspiraram o mais sábio e verdadeiro de todos os pensamentos filosóficos: 'Nóis sofre, mas nóis goza!'".

Autor original deste texto: Jotabe - www.recantodasletras.com.br/autores/jotabe

Tuesday, June 10, 2008

Do mundo de um certo Capitão Rodrigo

Diálogo entre o Pe. Lara e o Capitão Rodrigo. A história trata da formação do estado do Rio Grande do Sul e passa-se no século XIX.

-Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? - Perguntou o padre.
-Se eu fosse o dono do mundo, fazia algumas mudanças...
-Por exemplo... - pediu o padre
-Acabava com essa história de trabalhar...
-Sim, e depois?
-Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
-E depois?
-Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
-Dividia? Como? Pra quê?
-Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada negro, pra cada índio.
-Não vá me dizer que ia libertar os escravos...
-E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.
-Vosmecê é das Arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais?
-Ah, já ia m'esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.
-E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?
-Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...
-Quê mais?
-Acabava também com a velhice.
-Acabava?
-Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
-Nem morria?
-Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.
-Vosmecê não ia também acabar com as guerras?
-Bom... acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando fica tudo muito enjoado.
-Ia ser um mundo bem esquisito...
-Mas não mais esquisito que esse nosso, padre.
- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
-Mas hai muita coisa torta aí.
-Que há, há...
-Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil...
-E se dois homens desejassem a mesma mulher?
-Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola?
-Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras, e para variar, uma peleia... Não é isso?
-Mais ou menos...

In: O Continente, Érico Veríssimo.

Wednesday, June 04, 2008

Do cheiro de Santa Maria

No Ponto do Cinema onde os mestrandos das Letras batem ponto quase todo final de tarde, o sonzinho da música ao vivo dedilhou "Sampa". Logo, eu e Denize, outra forasteira, elaboramos, assim, na hora, outra letra em cima da de Caetano:
"Alguma coisa acontece no meu coração que só quando eu cruzo a Floriano rumo ao calçadão". Risadas e risadas, relembramos o dia em que ela, Denize, voltou da casa dos pais no Paraná. Um dia de chuva, frio, céu cinza, nos encontramos na Alberto Pasqualine, também conhecida como 24hrs, para almoçar no Português. Ela chegou linda, com seu casaco nem 3/4 nem 7/8. Mas os olhos verdes sentiam o peso da nuvem negra que pendia o seu semblante. Na saída, olhando para o rosto dela, fisionomia nauseada, perguntei:
- O que houve, guria?
- O cheiro dessa cidade! Um cheiro sólido! Que me sufoca!, poetizou saindo do restaurante com os pés firmes em seu scarpin preto de bolinhas brancas, pisoteando a 24hrs.
É, Caetano... Narciso acha feio o que não é espelho.

Friday, May 30, 2008

Da literatura na ponta da língua

“Senti falta daquele abraço que eu cabia certinho... que eu nem sobrava nem faltava”

Resposta de uma amiga depois de eu perguntar o que ela sentiu quando reecontrou um caso de amor antigo. Saiu assim... poesia espontânea.

Monday, May 19, 2008

Do bouquet (in)desejado



Casamento do ano! A primeira neta de Aely (família Castro) e de Celeste (família Maia de Sousa) vai casar em Salvador. Parentada de todo o Brasil reunida na terra de Jorge Amado. Chego no dia mesmo do casamento. Mauro e Tati me pegam no aeroporto e me deixam no hotel onde painho e meus irmãos me esperam. Sim, tivemos que ficar num hotel. As casas das gêmeas Tia Ângela e Tia Celeste já não comportavam tantos membros do clã Maia de Sousa e Castro. No saguão do hotel, encontro meu pai. Sorriso largo na boca e brilho nos olhos (nunca vi tão azuis como nesse dia), que diziam: "Não preciso de mais nada! Meus três filhos estão aqui'!
No pátio da igreja, toda a família. Risos, abraços, espanto! "Jesus, como assim Marcelinho?", perguntavam-se as primas da minha geração ao reencontrar o "priminho" que cresceu. Do outro lado, uma vozinha meiga: "Oxente, o padre... que desperdício!", lamentava Helena ao ver aquele francês de olhos azuis, praticamente um sósia do ator que faz o homem aranha, mas na versão adepta ao celibato. Enquanto isso, nós da faixa dos 25, que fingíamos nao ouvir as cobranças das tias "E vocês??? Quando vão casar???", resolvemos todas achar um lugar na igreja. "Eu só vou casar depois de 'Julho'. 'Julinho' é o filhinho do meu vizinho que tem 2 anos", brincavam. Eu, sempre meio desconfiada com as cerimônias religiosas e o 'até que a morte nos separe' que elas impõem , me vi chorando enquanto a imponente porta da igreja se abria, devagarinho, acompanhando as notas da marcha nupcial. Quando vi Marina, a noiva, de uma beleza que até doeu, virei pra Quel com cara de choro-alegre: "Aiiiiin! Quero casar na igreja!".
Depois de muitos soluços e fungadinhas de choro e emoção, seguimos, na confusão familiar típica ("O carro de Fulano tá cheio? E Sicrano vai onde? Tem carro pra Beltrano?"), para a impecável recepção. Em meio a camarões e prós secos da melhor qualidade, a alegria nem cabia. Até chegar a hora de jogar o bouquet! "Vai ser um pau da porra! Esse tanto de prima solteira", diziam. Coincidência ou sinal dos novos tempos?
- Bora, Tati!!! Mari vai jogar o Bouquet! - chamei minha inseparável prima
- Eu não vou não! Já peguei essa porra duas vezes e me deu um azar do carai! - respondeu ela no seu linguajar típico.
- Bora, poia! Só pra tirar onda...
- Sá p... ! Bora logo então.

Começa o vuco vuco. Estou lá, de mãos para o alto, bem na direção do bouquet, a exemplo das outras. Menos Tati, postada lá atrás, com um pró seco na mão direita e cara de desdém. Uma diva! "Joga, joga", gritavam. Mari lança o bouquet. Quel, ao meu lado, joga sujo e tira eu e Gabi da "competição" com seu indicador implacável nos nossas axilas! Baixei os braços caindo na gargalhada a tempo de ver o bouquet cair como uma luva, deslizando suavemente no colo de Tati que o agarrou incrédula:

-Nããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããõooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Essa porraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas, no final, foi só mais um motivo para rirmos em família. Que bom que os momentos felizes ficam guardados...
Aqui cabe revisitar um texto que postei em 2006, da Martha Medeiros: http://paticastro.blogspot.com/2006/08/do-casamento.html

Sunday, May 11, 2008

Do hippie

Voltando do almoço do Dia das Mães com minhas amigas cujas mães também estão em outro estado, deu uma saudadeeee da minha mainha. Imaginei o dia de hoje lá em casa. Café quentinho passado por Quel, bem de manhãzinha. Pão de queijo. Bolo de nozes. Pão fresquinho. Pimpinho ao pé da mesa. Mesa posta apontada para o céu da Savassi. Sorriso de mãe. Pensando nisso, caminhando no calçadão de Santa Maria, olhinhos baixos com o peso de tanta nostalgia, escuto um grito:
- Por favor! Me tirem do Rio Grande!, berrou um hippie sentado em posição de ioga com vários brincos artesanais em volta.
- Quem leu meu pensamento? - pensei olhando em torno.
Fui até ele...
- Má que houve, homi?
-Ah, esse lugar frio! Acho que o frio deixa o coração das pessoas mais frio...
Agradecido por eu ter ido puxar papo, me fez um brinco lindo: um 'bonequin' felizinho saltitando um reggae... e, a partir de agora, dançando na minha orelha direita.
Em casa ele parou de dançar. É que apertei forte o brinquinho, telefone bem junto ao ouvido, escutando com ternura cada palavra sorridente da minha mainha.

Friday, April 18, 2008

Da insustentável leveza do ser

"O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. (...) Tomás pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher) [...] O sono compartilhado era o corpo de delito do amor"

In: Kundera, A insustentável leveza do ser

Thursday, April 10, 2008

Da poesia televisionada

Estava dormindo. No sonho, uma voz masculina declamava uma poesia com uma música ao fundo. Abri os olhos, ainda semicerrados, reconheci Oswaldo Montenegro na tela da TV, violão e microfone, voz doce e olhos fechados, dizendo: "E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também". Levantei repetindo a frase na cabeça. Google: "E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também". Eis o poema na íntegra:
"Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade .
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo, se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia, e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.Porque metade de mim é amor, e a outra metade... também..."
Depois de conhecer a música da bailarina na voz dele, Oswaldo Montenegro me encantou mais uma vez, dez anos depois...

Friday, March 21, 2008

Tuesday, March 11, 2008

Do ontem agora

[Esperanças irreais]
[Expectativas desleais]
[Estruturas glaciais]
[Experiências difíceis especiais]
[Despedida (im)prevista]
.
.
.
[Hoje, inteira, uma mulher me habita]

Tuesday, February 26, 2008

Do Renato

Risadas, comentários de pé de página, confidências (para ele e mais ninguém!), amizade incondicional sem segundas intenções (rá!), cerveja com chuva e relâmpago, bolinhas de champagne. Ora bolhas, que saudade!
Com "tu", amore, la vie en rose!

Monday, February 18, 2008

Da amizade dos nossos tempos

Depois de seis meses, eu e Rena nos reencontramos em BH. Papo vai, papo vem, com tanta fluidez, que virei para ele com ternura:

- Quando a gente se revê, nem parece que ficamos tanto tempo longe, né?
- Pois é. Acho que amizade verdadeira não fica no status "offline". Fica, no máximo, "em horário de almoço"...
É nisso que eu acredito. Concordo plenamente, Rena.

Monday, January 28, 2008

Da cidade de São Miguel do Gostoso-RN

Mas quem vai para lá também é para ficar fora de área e temporariamente desligado...

Wednesday, January 23, 2008

Do amor (ou da paixão?)

"O caráter do verdadeiro amor oferece constantes similitudes com a infância: tem dela a irreflexão, a imprudência, a dissipação, o riso e as lágrimas"
Balzac, in: As Ilusões Perdidas

Wednesday, January 16, 2008

Da tentação

As festas e reuniões familiares na casa de tio Lula são conhecidas pela fartura de guloseimas feitas, a maioria, por ele próprio. Ele sai da cozinha com aquele rostinho bonachão trazendo até a varanda do seu belo apê- onde a família costuma se concentrar - nada menos do que churrasquinho, rosca salgada (depois embrulhadas em papel alumínio para nós), bobó de camarão, pãozinho de alho, picanha. Tudo, assim, de uma vez só. Fora a infinidade de chocolates, biscoitos e tortas que ele compra, dispostos numa fileira capaz de aniquilar qualquer dieta. Assim, a casa de Tio Lula é sinônimo de deleite ou desespero. Tudo depende da sua relação com o ponteiro da balança. É aí que entra a nossa personagem de hoje, Quel, minha irmã. Recém-chegada em Recife, seguiu para a casa do nosso querido e cozinheiro tio. "Putz, não posso exagerar tanto. Vou comer um pouco, o normal, mas depois escovos os dentes para não comer mais nada", pensou a esbelta Quel não sei porquê preocupada com a balança. No corpitcho dela, eu teria optado pelo deleite sem culpa. Colocou as poderosas escova e pasta de dentes na bolsa, "objetos-escudo", anti-celulites e gordurinhas póstumas. Resultado: ela escovou os dentes 11 vezes.
Quem é da nossa família entende, Quequel.

Friday, January 04, 2008

Da(quela) Saudade

Quando ela vem assim... rasgando... tudo fica tão sem sentido. O aperto no peito, sintoma de angústia, e só uma vontade de gritar, pedir um sinal que seja, além da matéria. Não posso mais ouvir teu riso, teus conselhos, nem a esperteza das réplicas afiadas como um estilete. Não posso mais ver as miçangas deslizando no fio do colar, a mão alisando o suor da testa e, em seguida, sobre a boca... nem - nunca mais - você deitada ao meu lado, no chão do quarto de TV, naquela hora que o soninho vem à tarde. Abrir os olhos e te ver, de conchinha, foi um suspiro de alívio depois de um sonho ruim... Só resta imaginar como você, hoje, agiria, o que diria, a expressão que seria... mas dói tanto sem nada a se agarrar, pegar, tocar. Só lembrar, lembrar tira o sono e o chão. Tão bom seria saber que você pode ainda ver tudo que de feliz está acontecendo. Um sinal ao menos podia... tipo latinhas de cerveja reluzindo nas nuvens e chuvinha de restinhos de cigarro...
Que falta você me faz.

Friday, December 07, 2007

Do futuro

Queria ser dona de academia de ginástica pra viver sarada e feliz liberando endorfinas.
Filosofar e teorizar, gosto mesmo é no boteco.
Vou-me embora pra Recife tentar achar meu norte.

Sunday, October 14, 2007

Do pós-moderno

Num domingo assim... tão londrino... estudar pós-modernismo...
Saudades de Londres, anos 80, quando eu nem sabia que habitava uma nomenclatura...

Sunday, April 29, 2007

Da verdade

O que não me mata me entristece, me enraivece, me desmerece, me entorpece, me engorda e não me fortalece.

As pessoas (professores, chefes e afins), autoridades sempre no meio daquele caminho que a gente acredita ser FINALMENTE aquilo que FINALMENTE queremos da vida poderiam tornar as coisas mais prazerosas em vez de só cagar na nossa cabeça. Por isso que é tão difícil achar essa tal felicidade. Tem sempre um coração de pedra no meio do caminho...

"Será que o postinho ainda tá aberto? Chocolate, coca e batata vão me deixar mais feliz até a próxima subida na balança! Será que o farmácia não me vende um rivotril sem receita? Não, não vende. Senão vai um serenus natureba mesmo. Preciso dormir essa noite, sem sonhar, esquecer por algumas horas que, há poucos meses, achei que seria tão diferente... que raiva! Continuo envelhecendo sem saber se um dia vou descobrir o que tem de bom pra se fazer o resto da vida..."

E tantas vezes me pego olhando pra essas autoridades que não têm riso... e dá um medo de me tornar uma delas no futuro... quando o que eu quero é só sorrir mais... e mais. Posso?

Saturday, April 14, 2007

Do tabagismo


Lauren Bacall, por favor

Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental --e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: "Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente!" Hitler não faria melhor.

Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.

Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco --tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da 'mulher com barba', fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil --e até contraproducente. Conheço gente que não fumava -- e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.

Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.

Fazemos assim: vocês ficam com o pênis, eu fico com Lauren.
(Por João Pereira Coutinho, colunista da Folha)

Falando nisso cabe uma do Quintana que adoro:
"Desconfia dos que não fumam, estes não tem sentimentos. Fumar é uma forma disfarçada de suspirar"

Saturday, March 17, 2007

De Albert Camus

Um dos meus professores do mestrado volta e meia citava Albert Camus no primeiro dia de aula. Não tinha ligado o nome à pessoa até ele escrever no quadro: Albert Camus. "Ah, é aquele Camus!", pensei pronunciando na minha cabeça o nome da maneira que se escreve. Agora aprendi que se pronuncia Camír... fiquei interessada em ler mais sobre este escritor tão mencionado pelo meu professor. O que mais me impressionou foi o desfecho da sua vida que mais parece literatura:

"Camus morreu em 1960 ao sofrer um acidente automobilístico. Em sua maleta estava contido o manuscrito do "O Primeiro Homem", um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto ele escreve que aquele romance deveria terminar inacabado. Em seu bolso constava um bilhete de comboio para sua viagem para fora do país, sob razões até hoje nunca esclarecidas"


Tuesday, February 27, 2007

Das horas

Se tantos momentos passam despercebidos, se tantas coisas não lembramos, quantas horas de vida sobram no final?

Friday, February 16, 2007

Da canção do exílio facilitada

Sabem aquele poeminha que todo mundo lê na escola? Aquele de Gonçalves Dias: "Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...". A canção do exílio! Lembraram? O poema é lindo, mas existe uma versão mais prática e divertida:

Lá?
Ah!

Sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

Cá?
Bah!

José Paulo Paes

Monday, February 05, 2007

Da mainha, o retorno

Sabem a história do pardalzinho que narrei dois textos abaixo? Pois é. Depois de 31 dias em Recife chego na casa do aconchego em BH louca para repartir as lembranças que achei na minha cidade natal. Tinha histórias e pedaços de recordações concretas! Virei pra minha mãe:
-Tu lembra do pardalzinho que a gente achou no jardim em Londres e...
-O pardalzinho que o gato comeu? - perguntou ela de olhos arregalados
-O gato comeu, mainha?
-É, aquele gato que ficava entrando lá em casa. O pardal tava paradinho e ele NHAC! De uma vez só...
-Ai... sério?
-Sério... o que tem ele?
-Ah... não sei mais nada. Tô com pena do pardalzinho...
Falando nisso...
Quando estávamos em Londres, eu com 4 anos, minha mãe costumava me contar histórias antes de eu dormir. Um dia ela inventou de me contar "A pequena Sereia". Só que, na versão da Disney, a pequena Sereia vira gente e termina com o príncipe. Na versão da minha mãe, a pequena sereia perde a língua, a voz, o príncipe e ainda vira espuma. Pode ter uma história mais de terror?????? Quando ela terminou eu berrava e soluçava:
-Mainha... hic hic... ela ainda vira espuma, mainha?
Não lembro o que ela respondeu. Só faltava dizer que o gato que comeu o pardalzinho também comeu a língua da pequena sereia.
Essa mainha não existe...!!! O único defeito é que ela fuma cigarro de menta... :)

Friday, February 02, 2007

Do pôr do sol no Capibaribe, minha Tati

Eita Recife dos aperreios
Dá medo de não voltar pra casa
Além de outros tormentos e sentimentos sem graça
Mas a gente sempre volta
Porque lá dentro... dentro, dentro
Tem uma risada solta
Um comentário jocoso
Uma grosseria bem bolada
É Tati danada
Que bota a gente dentro de uma piada engraçada

Wednesday, January 31, 2007

Do meu irmão

Remexendo as caixas na casa do meu pai em Recife, achamos muita coisa boa. Fotos, fitas e cartas. E no meio de tanta nostalgia, uma carta do meu irmão Thiago, então com 8 anos. Ele mandava as novidades que encontrou em Londres onde moramos por 2 anos. A carta data de 25/03/87. Vou preservar a estrutura e a pontuação originais. Ele adorava ponto e vírgula. Complexo desde criança... :)
"Voinha e voinho como estão as coisas aí? Muitas coisas boas? Ou muitas coisas ruins? Tomara que só coisas boas. Vou começar as aulas no colégio e aprender o inglês. Como vão as empregadas? Dulcinéia a trabalhadora e Luisa a atrasada? Aqui em casa não tem empregada mas está tudo bem; as comidas estão boas e gostosas, eu tenho muitas novidades; todas úteis; umas torneiras aqui em vez de rodar para abrir e fechar é só empurrar e a água vai saindo depois a torneira vai subindo e a água vai acabando; a porta dos ônibus abre mais rápido porque ela vai se encolhendo e a gente vai entrando. Agora aconteceu uma coincidência toda vez que eu, Raquel e Pat vamos andar de ônibus a gente pega o primeiro lugar no mesmo ônibus, o número dele é 184, a gente também andou no metrô eu quero que vocês contem para todo mundo da família da gente essa notícia o metrô que a gente andou é o mais velho do mundo inteiro tem mais de 100 anos. Lá antigamente era onde as pessoas se protegiam das bombas. Aqui agora está uns 10 graus. Um beijão e um abração do seu amigo e neto Thiago"
Falando em Londres...
Painho em uma das cartas para vovô Adalberto conta que nós 3 ficamos melancólicos com o poema do pardal que ele mandou para os netinhos (não sabemos mais que poema é esse...). Painho continua dizendo que, logo depois, encontramos um pardalzinho no jardim que não conseguia voar. Eu, com 4 anos, na minha mistureba de inglês e português:
"Vem ver Thiago o pardalzinho que não consegue fly. Poor child..."
Agora mesmo está tocando uma fita K7 enviada para nós por Tio Lula, em 1984, quando estávamos não em Londres, mas nos EUA onde moramos por 4 meses. Tio Lula no teclado, acredito... vovó, vovô e Tia Raquel cantando e declamando poesias. Os primos André, Luquinha e Mariana, vozinhas finas, desejando que o tempo passe rápido pra gente voltar logo. A fita termina com Mariana com uns quatro anos e inglês impecável, cantando "I should be so lucky, lucky, lucky, lucky". E agarrada com Quel desde miudinha: "Tchau Quequel! Boa Varig!", termina Mari.
Fiz cara de choro-alegre...

Tuesday, January 23, 2007

Da cachaça

Era bom que, quando a gente tomasse uma, qualquer tipo de meio de comunicação deixasse de funcionar. Detectado o bafo do álcool, um dispositivo poderia ser acionado e o celular, msn e afins seriam automaticamente desligados. Infelizmente, a microsoft e as operadoras de celular ainda não perceberam o perigo da combinação bebida-produtos eletrônicos. Nem o Ministério da Comunicação... que poderia advertir: o álcool combinado aos meios de comunicação destroem a moral.

Thursday, January 18, 2007

Do Recife

Dias de coração de jujuba...

Monday, January 08, 2007

Do meu verão

Trinta dias em Recife
(Medo de ser assaltada)
Bronzezinho nas pernas
Abusar dos micro shorts e micro saias
Sandálias (de salto, claro!): ventinho nos dedos do pé e calcanhares
Diet Shake na dispensa
Tênis
Corrida na pracinha ou na orla da praia
Não usar maquiagem durante o dia
Óculos escuros gigantescos para esconder as sardas
Boné para esconder as sardas
Protetor solar fator um milhão nas sardas
Reclamar das sardas
Pedir pra painho me levar no dermatologista para tirar as sardas
Ouvir ele dizer que isso é besteira
Ficar deprimida com minha cutis de cor européia
Utilizar eufemismos como o de cima para me consolar
Maquiagem de leve no rosto
Detonar um potão de sorvete de cajá
Corrida na pracinha ou na orla da praia
Não pisar na areia
Nem molhar os pés na água do mar
Sentar numa mesinha do calçadão
Comer peixe frito e tomar cerveja gelada perto da hora do pôr do sol
Corrida na pracinha ou na orla da praia
Ler García Márquez na rede
Ver uma pilha de dvds
Depois de ter enfrentado o calor de Santa Maria, não xingar mais o de Recife
Morrer de saudade...

Óculos escuros: R$ 45,00
Vestido florido: R$ 30,00
Skol gelada: R$ 2,50
Ver o pôr do sol na praia de Boa Viagem sem o meu amor: não tem graça...

Do painho

Muitos protestaram porque vinha escrevendo aqui os casos cômicos de mainha. Mas quem não coleciona as pérolas dos pais? São histórias dignas de comunidades no orkut: "meus pais falam Maque Donalds". Lá tem relatos em comum das mais diferentes pessoas do Brasil. "Eita, que onda! Achei que essas coisas só aconteciam aqui em casa", admirou-se um membro da comunidade. Será que quando a gente for "pais" vamos cometer as mesmas proezas?
Enfim, depois de falar muito de mainha, vai aqui uma de painho. Foi em Porto de Galinhas, uma conversa entre amigos testemunhada por minha irmã Quel. O assunto em pauta era "filhos". Painho filosofou:
- É engraçado essa coisa dos filhos, né? Da gente ver neles o nosso jeito... Thiago, por exemplo, tem essa coisa da responsabilidade. Pati puxou de mim essa coisa de filosofar sobre a vida, sobre o sentido da existência...
Quel, de soslaio, prestava atenção ansiosa pela sua vez...
- E Quel... Quel... Tem essa coisa, essa minha coisa... de gostar de farofa!
- Eita, painho! - protestou a bichinha*
-Mas num é minha filha? Você num gosta duma farofinha?
*expressão nordestina equivalente à "tadinha"

Wednesday, January 03, 2007

Do tempo

"Seu Hamil tinha me dito muitas vezes que o tempo vem lentamente do deserto com suas caravanas de camelos e que não tinha pressa, porque transportava a eternidade. Mas é sempre mais bonito quando se fala do que quando a gente vê no rosto de uma velha pessoa que é roubada todos os dias um pouco mais e, se querem minha opinião, o tempo é um bando de ladrões que é preciso procurar"
Trecho de "Toda vida pela frente", de Emile Ajar (Romain Gary)

Saturday, December 30, 2006

Da "homenage"

Do meu grande e sempre professor de literatura Octavio Da Matta, literatura de cordel:
"A minha querida Pati
é mestre no jornalismo
gosta de literatura
sabe também modernismo
e agora também dá aulas
com todo esse brilhantismo.
De Belô a Porto Alegre
sai espalhando cultura
entrevistando a gente,
fazendo literatura
e além de tudo a guria
é a maior formosura.
Minha querida Patrícia
rendo aqui essa homenage
pra essa pessoa que leva
carinho e amor na bagage
saúde, sorte e sucesso
pra você nessa viage"
Tudo isso feitinho de improvisu, bem pontual, numa prosa virtual...

Tuesday, December 26, 2006

Da essência

Pandora sempre foi uma caixinha de surpresas. Desde pequena surpreendia a famiília com sua sagacidade e jeito imprevisível. Começou a ler antes de aprender na escola. No carro com a mãe, o jornal em cima do colo, soletrou uma palavra da manchete principal: PE-CA-DO. A mãe quase bateu o carro de susto... e orgulho. Mal sabia ela que há muito Pandora costumava segredar para si as palavras dos outdoors da cidade. Tinha só cinco anos.
Cresceu ouvindo que o sexo feminino deveria prezar a independência porque os homens não prestam. Com 16 anos e corpo de mulher começaram os estragos. Aos 22 - estagiária de uma empresa de comércio exterior -, de tailler moderninho e salto agulha, pisoteava corações masculinos. O figurino era recheado com um corpinho de 1.75 m e medidas 90-60-90. Aos 25, já contratada pela empresa de comércio exterior, as medidas mudaram. Ela não. A primeira e a última ganharam alguns ml de silicone: 96-60-102. Números não mais arredondados, em compensação o corpo sim. Este também ganhou mais adeptos.
Cercada de "homens vazios", como ela mesma dizia, fazia do jogo da sedução seu melhor passatempo. E o sofrimento dos pobres que se achavam pretendentes, sua melhor recompensa. Cultivava nos outros os pecados da luxúria e da ira. Controlava a avareza, a gula e a preguiça. Despertava a inveja feminina. Emanava soberba.
Aos 29, funcionária pública bem sucedida e residindo nos arredores da Lagoa Rodrigo de Freitas, perdeu a graça de viver. Sentia falta de um bração constante que a envolvesse na hora de dormir. Alguém do sexo oposto para lhe fazer carinho no domingo à noite. Pra brindar um cálice de vinho tinto num dia feliz. Pra brigar pela fatia de bolo mais recheada. Queria um filho.
Conheceu Matoso, nordestino da porra, funcionário público em estágio probatório. Bonitão, morenão, machão, diferente dos tipos modernos e sensíveis que tinha se acostumado. Ficou louca. Ele cultivou nela a luxúria, a ira, a gula e a preguiça. Ela passou a despertar a compaixão feminina quando deixou a soberba embrulhada na gaveta da escrivaninha do Matoso. Aos 32 casou, teve 3 filhos homens e emendou a licença maternidade com o trabalho doméstico.
Pandora descobriu-se Amélia...

Wednesday, December 20, 2006

Do calor de Santa Maria


No verão que deixei Santa Maria, no Centro do Rio Grande do Sul, deixei pra trás só o calor. O resto veio comigo. Pelo menos em um aspecto fiquei feliz ao entrar no ônibus com ar condicionado. Olhava triste para o Igor da janela e, além de triste, ele, tadinho, me olhava com calor. O termômetro da rodoviária condenava quarenta graus sufocantes. Para se ter uma idéia, no tórrido dezembro dentro da república, quando os moradores saíam para a aula, eu juntava o ventilador de todo mundo, ao todo três, em cima de mim. Era só sair da rota dos ventinhos que o suadouro recomeçava. Sim, não é só de frio que vivem os gaúchos. E quando me sentia abafada, irritada, prestes a pular da janela e quase rouca de tanto gritar: "Senhor, que calor!", me vinha Manuel Bandeira na cabeça, refrescando (pelo menos) a memória: "Tu reclamava de barriga cheia do calor de Recife, muié".
Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:Vamos viver de brisa, Anarina.
(Manuel Bandeira)

Tuesday, December 19, 2006

Do Rio Grande do Sul II

Até o domingo à noite é bom...

Monday, December 11, 2006

Da decepção

Muitos já sabem que Igor, meu namorado, é canhoto das idéias. Membro da União Nacional dos Estudantes e filiado ao Partido dos Trabalhadores, ele luta contra as injustiças sociais. Morro de orgulho! E Confesso que muito tenho aprendido com ele. A sociedade pra mim tem outra cara agora. Mas às vezes nossas palavras ainda trombam... Tipo assim:
- Ei, amor! Sabe o que meu pai ganhou de natal de dois clientes?
- O quê?
- Um palmtop e um laptop!
Ele que estava deitado com a cabeça no meu peito, esticou o pescoço e me encarou:
- Mas teu pai é médico de elite então???
- Anhan. O melhor médico tem que cobrar caro, né? - corujei
- E ele ainda salva a vida deles?!
Gargalhadas e beijinhos. Silêncio.
- Mas é com o dinheiro dessa elite que às vezes a gente faz umas farrinhas boas...
- Báh... - murmurou decepcionado

Thursday, November 23, 2006

Do aconchego

Se no céu não tiver cadeira de balanço... o que será de Tia Celina que foi para o céu...?*






*Adaptação do poema de Mário Quintana para Tia Élida.

Monday, November 13, 2006

Do lexotan de supermercado

Tem dia que só uma overdose de açucar me acalma.
Acho que a dose de ontem me manterá serena até o mês que vem:
2 torrones + 1 serenata de amor + 1 laka + 25 balinhas setebelo.

Não, não. Não foi ao longo do dia. Um atrás do outro.
Sim, sim. Esses ataques coincidem com minha tpm.
Mas bem que o peso na consciência podia não descer para os quadris, néam?

Por favor! Alguém sabe como evitar doces e ser feliz?

Monday, October 09, 2006

Da poesia sem verso

- Você se lembra quando nós dormimos na praia de Boracéia? E não tinha lua nem um pouco de luz para distinguir as coisas da terra. Tudo era um negro só. Nós estávamos perto do mato e sentíamos aquele cheiro de clorofila misturado com o nosso suor. Quando você deitava sobre mim, as estrelas em volta da sua cabeça brilhavam, distantes, e às vezes embaraçavam no teu cabelo e ficavam a um palmo dos meus olhos e depois fugiam rapidamente para o céu. Você se lembra...?
- Não lembro disso porque foram seus olhos que viram. Eu estava do outro lado de você e via e sentia outras coisas. Para mim, tudo exalava de você confundido com a terra, e eu nem te enxergava direito. Eu descobria teu corpo caminhando nele com os dedos. Naquela noite o prazer e o peso de estar no mundo foram maiores que sempre. E tudo tão simples: eu e tu, sós, deitados na areia perto do mato, trocando pedaços de carne em plena noite.

Friday, September 08, 2006

Da Guerra

"Os aviões abatidos
são cruzes caindo do céu"

Mario Quintana! Tinha que ser tu.

Friday, August 18, 2006

De perto ninguém é normal

A Cíntia é uma guria que mora no mesmo apê que eu aqui no Rio Grande do Sul. Esta semana ela começou um estágio no hospital psiquiátrico da universidade. Um dos pacientes, que aliás se encantou por ela, pôs-se a examinar minuciosamente seu rosto, só que de um jeito diferente das outras vezes.
- O que foi? - Perguntou ela
- Por que você tem um brinco no nariz e não tem nas orelhas?
E ainda dizem que o louco é ele...
***
Falando nisso, há uns quatro anos, o filho de uma amiga da minha mãe que à época devia ter uns cinco, fitou curiosamente minha tatuagem nas costas e perguntou:
- O que é isso?
- Um desenho... - respondi
- E por que você não desenhou no papel?
É. As crianças e os loucos também tem razão.

Friday, August 11, 2006

Do casamento



..."Se eu tivesse casado na igreja seria a mais convencional das noivas. Só uma coisa tentaria mudar, ainda que recebesse um sonoro não: o sermão do padre. 'Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?' Bonito, mas dramático demais. Os noivos saem da igreja com uma argola de ouro no dedo e uma bola de chumbo nos pés. Seria mais alegre e romântico um discurso assim:

ELA: 'Prometo nunca sair da cama sem antes dar bom-dia, deixar você ver seu futebol na tevê sem reclamar, ter paciência para ouvir você falar dos problemas do escritório, ter arroz e feijão todo dia no cardápio, acompanhar você nas caminhadas matinais de sábado, deixá-lo em silêncio quando estiver de mau humor, dançar só para você, fazer massagens quando você estiver cansado, rir das suas piadas, apoiá-lo nas suas decisões e tirar o batom antes de ser beijada'

ELE: 'Prometo deixar você sentar na janelinha do avião, emprestar aquele blusão que você adora, não reclamar quando você ficar 40 minutos no telefone com uma amiga, provar suas receitas tailandesas, abrir um champagne todo final de tarde de domingo, assistir junto ao capítulo final da novela, ouvir seus argumentos, respeitar sua sensibilidade, não ter vergonha de chorar na sua frente, dividir vitórias e derrtoas e passar todos os natais ao seu lado'

Sim, sim, sim!!!" Eu aceito!!!!
Martha Medeiros em Trem Bala

Friday, August 04, 2006

Da definição

Sorriso: 1. ponte iluminada para o Natal; 2. telegrama assinado pela alegria; 3. tique nervoso de quem ama; 4. holofote próprio para iluminação de tocas de tristezas; 5. subproduto de noite divertida sob (ou sobre) lençóis; 6. antônimo de mágoa; 7. melhor amigo dos pirulitos de morango; 8. prévia de carnaval dentro do peito; 9. veleiro à deriva no mar da vida; 10. arrecife de pérolas; 11. cartão de visitas da gargalhada; 12. alimento preferencial da paixão; 13. muralha contra invasões bárbaras; 14. creme dental refrescante; 15. inimigo figadal do desprezo; 16. as time goes bye ; 17. um dos irmãos Marx; . (Ex.: “Vem, meu sorriso, que a vida corre depressa e é preciso descalçar os sapatos e pisar nas nuvens antes que elas amadureçam". - in Coisas de Amor Largadas na Noite, E. Almeida)

Lágrima: 1. saudade na forma líquida; 2. mistura de água do mar com alma moída; 3. secreção aquosa expelida através dos canais lacrimais quando se espreme o coração; 4. felicidade que escorre pela face; 5. estrela cadente que despenca do céu dos olhos de quem ama; 6. motivo da existência de lenços brancos; 7. resultado da fusão de sentimentos contraditórios quando submetidos a altas temperaturas; 8. nome comumente dado ao fim de um romance; 9. momento que antecede o adeus; 10. pedaço de ontem; 11. antônimo de desprezo; 12. matéria-prima das jujubas; 13. grande inspiração dos poetas; 14. fado de Amália Rodrigues; 15. na Europa, folha que cai da árvore quando chega o outono; 16. na infância, associada ao berro, alarme de fome; 17. na velhice, fome de colo; 18. névoa úmida que cobre o mundo quando chove dentro da gente. (Ex.: "Não, isso não é lágrima, não. É que a felicidade virou mar dentro de mim e a maré acabou de subir". - in Coisas de Amor Largadas na Noite, E. Almeida)

Tanta sabedoria e poesia são do dicionário lúdico brasileiro de André Gonçalves...

Friday, July 28, 2006

Da diversidade*

Era uma vez dois meninos interessantes. Um tinha um quê de barroco. O outro um jeito romântico. O primeiro era lindo, astuto e simpático. O segundo era belo, inteligente e carismático. Eles tinham tão tudo a ver que enquanto um terminava de elaborar uma anedota, o outro já desembuchava a tal pilhéria sobre qualquer coisa inusitada que viram ou ouviram. Riam juntos então.

Mas barroco e romântico há muito sentiam a poesia esmorecer. Além de se privarem de tantas vontades comuns a todos os seres humanos, os dois tinham quase sempre que reprimir o desejo de um pelo outro. Beijos, abraços e afagos exigiam hora marcada. Até o dia em que o segundo saiu em disparada da casa do primeiro – sem nem se despedir – ao ouvir um terceiro chegar.
Ao telefone 30 minutos depois:

- Ah não! A gente tem que dar um jeito nisso! – revoltou-se o primeiro
- Mas como? – Suspirou desacreditado o segundo

De pernas elegantemente cruzadas e recostado no sofá de couro vermelho, o primeiro pensou, pensou, pensou. Pensou mais um pouquinho e acendeu um cigarro. Pensou, fumou, pensou, fumou, pensou... e oito maços depois encontrou a solução.

- Vamos embora daqui. Vamos para a Holanda! – gritou entusiasmado o primeiro.
- Holanda??? He-Hé-Hé! Agora? Como? Por que?
- Lá é um país liberal. As pessoas usam drogas no meio da rua. Ouvi dizer que tudo pra eles lá é normal... Eles todos lá são adeptos do “Movimento Vaca”: tão cagando e andando pra tudo. Por isso as vacas holandesas são conhecidas no mundo inteiro!
- Mas como a gente vai fazer pra ir agora?
- Indo! Ou você quer esperar que a sociedade mude? Eu não quero ficar protestando para que as gerações futuras possam usufruir de tudo enquanto eu já tô morto. Quero ser feliz com você agora!

Lá no outro continente as coisas eram bem diferentes. Mas tal qual a sociedade brasileira, a holandesa ainda precisava evoluir quando a questão envolvia o mesmo sexo. Voaram então pra uma ilha deserta no Peloponeso. Viveram 9 dias de paz, sem nenhum olhar ameaçador lhes dilacerando a alma. Até que a Guarda Costeira apareceu de repente. Apanharam em flagrante os dois deitados na areia, um de frente pro outro, dando risada com as pernas enroscadas. Foram presos por atentado ao pudor. Paradoxal, mas enfim...
No final das contas, o governo brasileiro pediu a extradição do casal. Apelou para o discurso da aceitação das diferenças e da necessidade de uma sociedade justa e democrática que tanto o Brasil luta pra ser. O segundo ficou empolgado:

-Agora com essa intervenção do presidente, nosso caso vai virar manchete. As pessoas vão se sensibilizar e vai ser um grande passo para vivermos em paz...

Quando chegaram no Brasil, estranharam. Nenhum burburinho sobre o episódio. Era época de campanha eleitoral e o então presidente preferiu abafar o caso. Era preferível manter o status quo a provocar polêmica. Afinal, não queria perder os votos da maioria da população do país, que era conservadora. Não podia arriscar. A justiça brasileira decidiu absolvê-los, mas os dois tiverem que assinar um termo em troca. O documento exigia o silêncio de ambos. Assim foi feito.
Fatigado, mas obstinado, o primeiro não desistiu.

-Vamos para os Estados Unidos. Lá é a terra das oportunidades, o país da democracia...

O segundo igualmente obstinado apoiou a idéia. Mas, na véspera da viagem, Bush baixou um decreto proibindo a entrada de latinos, negros, e homossexuais no país sob pena de morte. O governo americano considerava a estirpe um bando de terroristas em potencial. Era fuzilamento na certa.

O primeiro continuou pensando. Pensou, pensou, pensou. Acendeu um cigarro. Pensou, fumou, pensou, fumou, pensou... até que...

- A solução é irmos embora do planeta. Aqui não vamos nunca ser plenamente felizes...

Uniram as persistências e as inteligências. Numa nave espacial de cores modernas foram baixar num planeta distante, em outra Galáxia a qual deram o nome de “Gayláxia”. Aterrisaram num planetinha aconchegante onde a morte não existia, nem a rotina e nem domingo à noite. Do chão brotavam alimentos light, mas com gosto bom de guloseimas. No céu, um arco-íris lá pairava sempre. Construíram uma casinha no final do arco-íris, representando que tinham finalmente encontrado o tesouro.
O planeta, o segundo resolveu batizar de “Tô-nem-aí-véi”. Mas o primeiro, estritamente avesso aos erros gramaticais, fez cara ruim.

- Tem que ser Tô-nem-aí (vírgula) véi, porque o vocativo tem que ser separado por vírgula.
- Mas é só uma nomenclatura...
-Mas você sabe que eu fico agoniado com erros de português!

Ficou “Tô-nem-aí”. E eles foram felizes para sempre a milhões de anos-luz daqui. Porque na Terra eles também tinham tudo para ser feliz, só que a gente desse mundo não deixava. E é por isso que nesse texto eles não tem nome.

E 300 anos depois, o já consolidado movimento gay derrubou o regime totalitário mundial imposto pelo presidente Bush no século XXI. Os homossexuais finalmente tomaram o poder. O planeta azul ficou rosa e bem melhor de se viver.
*Baseado em fatos reais

Monday, July 10, 2006

Da independência

Sem "Cráudia" e longe de mami, tenho usado minhas mãos e pernas em prol dos afazeres domésticos. Lá no lar de Belo Horizonte me preocupava só com a organização do quarto e com meia dúzia de talheres. Agora tenho dedicado meus sábados à exaustivas faxinas, além das tarefas domiciliares do dia a dia. Estou meio que levando uma vida de estudante depois de formada. Minhas mãos estão ressequidas e enrugadas de tanto manusear e carregar baldes de água sanitária. Microondas. Putz, microondas faz falta. Como demora pra esquentar comida na panela! E toda a louça que fica pra lavar na hora da sesta?
Semana passada, mais um desafio. Diante da pilha de roupa suja me dei conta de que nunca aprendi a lavar roupa na máquina de lavar. Nunca precisei fazer isso, ué! Sabia que tinha uma parada de separar as roupas coloridas das brancas. O Igor, então, me explicou tudinho... Da cozinha, ele me viu examinando uma blusa de manga comprida:
- Que foi, amor?
- Como que faz com essa aqui? Ela é colorida mas tem três listras brancas...
- Soca na máquina, môre...
- E esse moleton laranja e roxo? Ele não vai manchar esse meu short rosinha?
- Soca na máquina, môre...
"Soca na máquina, môre". É né? Pois tirei de lá umas meias psicodélicas com manchas roxas e laranjas! Eu sei, eu sei... não há aprendizado sem manchas, certo? ;)
Tem sido divertido...

Wednesday, July 05, 2006

Da copa

Como bem falou (e disse) Arnaldo Jabor, o time da seleção jogou contra a França com a displicência de quem ganha milhões e desfila com "louronas" pelo mundo. E o pior de tudo é que eles ainda tiraram da gente os ares de copa. Sem mais bandeirolas, nem apitos, nem verde e amarelo colorindo cada esquina, nem cidade com cara de domingo em pleno horário comercial. Lá se foi junto o patriotismo e a ilusão de igualdade. Mas já viram... lá se foram os feriados e essa droga de realidade voltou mais cedo. Bando de milionários incompetentes!
Roubando as palavras do chato do Agostinho do BBB 6: "Obrigada, Brasil" !
Valeu mesmo por nos sufocar com a rotina antes do tempo!