
Lascívia estava com o coração doendo. Pensava sobre suas últimas relações e convenceu-se de que os homens da sua idade não se apaixonam mais. Será que os homens de 35 pensavam diferente daqueles que, lá pelos 26, lhe faziam juras de amor eterno? Ou seria a fluidez das relações na pós-modernidade? Apelou, primeiro, para o amor líquido: champanhe para amainar a dor. Uísque para deixar momentaneamente o mundo mais bonito.
Lascívia, álcool na veia e olhos de ressaca, desabafava com seu fiel amigo Charlinho numa mesa de bar. Copos e camel para exalar a fumacenta angústia:
- Sabe que às vezes penso que se relacionar com mulher seria mais fácil...
- Por que você não tenta?, perguntou já com os olhinhos brilhando, imaginando uma cena imprópria para aqui ser descrita. Muito imprópria, porque afinal vinha do imaginário do Charlinho.
E Charlinho levou Lascívia cambaleante para uma boate GLS.
- Hum... muito novinha essa. Essa outra muito masculina... Hum, tá foda! - repetia Charlinho para si enquanto procurava uma candidata para a amiga.
Até que a montanha chegou a Maomé. Atraída por Lascívia, ela veio de shortinho e rasteirinha. Brincos brincando de se enroscar no cabelo grande. Um sorriso largo enfeitava o rosto. A conversa e o jeito a deixavam mais bonita. Volúpia era seu nome.
As meninas conversaram por horas e horas, enquanto Charlinho olhava para Lascívia como quem diz: "Beija logo, porra. São cinco da manhã". E Lascívia retornava também com os olhos: "Calma, é estranho". Até que para amenizar o estranhamento, Volúpia vedou os olhos de Lascívia com as mãos e beijou-a na boca.
Lascívia pensava no quanto Volúpia beijava bem ao mesmo tempo em que tentava se acostumar com aquela cinturinha. As mãos de Lascívia não se moviam, ficaram presas, estáticas naquela cintura onde batiam os cabelos de Volúpia. Não conseguiu deixar de estranhar aquele corpo delgado e tão feminino. Deu mais um selinho e saiu correndo, deixando para trás só o endereço do email.
As duas trocaram emails e telefones. Mas ambas souberam-se incompatíveis. Lascívia confessou que testosterona lhe faz falta. Volúpia disse que cansou de se envolver com heteros de espírito aventureiro. Decidiram ser amigas. Mas às vezes se olham sabendo que Volúpia encontrou tudo que ela queria numa mulher. E Lascívia achou em Volúpia tudo que falta num homem. E brincando, não cansam de cantar: "Eduardo e Mônica eram nada parecidos..."
*Inspirado no filme Vicky Cristina Barcelona














