Wednesday, August 06, 2008

De Tanathos

Navegando na internet em busca de mais conhecimento sobre Tanathos, que representa a Morte, tão mencionada no livro de Saramago que estou lendo (As intermitências da Morte), esbarrei no seguinte texto de humor refinado:

Tanathos

"Freud ensinou que os filhos taram os pais;
que nossos sonhos são manifestações, do subconsciente, de desejos reprimidos (e que desejos hein? Nooooossa!);
que o motor da vida é o sexo (Ôôôbaaaaa! Ainda bem que inventaram um super combustível para foguetes meia-vida, o Viagra Plus Premium 3D-XP-Putz, da Shellshot);
e recentemente, tomei conhecimento de um outro conceito freudiano, Tanathos, o instinto da morte que nos incita a auto-destruição!
Pô! Não acredito...!
Alguém devia ter dito a Freud que: sexo, sim; sofrimento, é o jeito; mas, auto-destruição, jamais. Afinal sexo e sofrimento são os combustíveis da vida que inspiraram o mais sábio e verdadeiro de todos os pensamentos filosóficos: 'Nóis sofre, mas nóis goza!'".

Autor original deste texto: Jotabe - www.recantodasletras.com.br/autores/jotabe

Tuesday, June 10, 2008

Do mundo de um certo Capitão Rodrigo

Diálogo entre o Pe. Lara e o Capitão Rodrigo. A história trata da formação do estado do Rio Grande do Sul e passa-se no século XIX.

-Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? - Perguntou o padre.
-Se eu fosse o dono do mundo, fazia algumas mudanças...
-Por exemplo... - pediu o padre
-Acabava com essa história de trabalhar...
-Sim, e depois?
-Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
-E depois?
-Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
-Dividia? Como? Pra quê?
-Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada negro, pra cada índio.
-Não vá me dizer que ia libertar os escravos...
-E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.
-Vosmecê é das Arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais?
-Ah, já ia m'esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.
-E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?
-Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...
-Quê mais?
-Acabava também com a velhice.
-Acabava?
-Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
-Nem morria?
-Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.
-Vosmecê não ia também acabar com as guerras?
-Bom... acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando fica tudo muito enjoado.
-Ia ser um mundo bem esquisito...
-Mas não mais esquisito que esse nosso, padre.
- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
-Mas hai muita coisa torta aí.
-Que há, há...
-Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil...
-E se dois homens desejassem a mesma mulher?
-Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola?
-Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras, e para variar, uma peleia... Não é isso?
-Mais ou menos...

In: O Continente, Érico Veríssimo.

Wednesday, June 04, 2008

Do cheiro de Santa Maria

No Ponto do Cinema onde os mestrandos das Letras batem ponto quase todo final de tarde, o sonzinho da música ao vivo dedilhou "Sampa". Logo, eu e Denize, outra forasteira, elaboramos, assim, na hora, outra letra em cima da de Caetano:
"Alguma coisa acontece no meu coração que só quando eu cruzo a Floriano rumo ao calçadão". Risadas e risadas, relembramos o dia em que ela, Denize, voltou da casa dos pais no Paraná. Um dia de chuva, frio, céu cinza, nos encontramos na Alberto Pasqualine, também conhecida como 24hrs, para almoçar no Português. Ela chegou linda, com seu casaco nem 3/4 nem 7/8. Mas os olhos verdes sentiam o peso da nuvem negra que pendia o seu semblante. Na saída, olhando para o rosto dela, fisionomia nauseada, perguntei:
- O que houve, guria?
- O cheiro dessa cidade! Um cheiro sólido! Que me sufoca!, poetizou saindo do restaurante com os pés firmes em seu scarpin preto de bolinhas brancas, pisoteando a 24hrs.
É, Caetano... Narciso acha feio o que não é espelho.

Friday, May 30, 2008

Da literatura na ponta da língua

“Senti falta daquele abraço que eu cabia certinho... que eu nem sobrava nem faltava”

Resposta de uma amiga depois de eu perguntar o que ela sentiu quando reecontrou um caso de amor antigo. Saiu assim... poesia espontânea.

Monday, May 19, 2008

Do bouquet (in)desejado



Casamento do ano! A primeira neta de Aely (família Castro) e de Celeste (família Maia de Sousa) vai casar em Salvador. Parentada de todo o Brasil reunida na terra de Jorge Amado. Chego no dia mesmo do casamento. Mauro e Tati me pegam no aeroporto e me deixam no hotel onde painho e meus irmãos me esperam. Sim, tivemos que ficar num hotel. As casas das gêmeas Tia Ângela e Tia Celeste já não comportavam tantos membros do clã Maia de Sousa e Castro. No saguão do hotel, encontro meu pai. Sorriso largo na boca e brilho nos olhos (nunca vi tão azuis como nesse dia), que diziam: "Não preciso de mais nada! Meus três filhos estão aqui'!
No pátio da igreja, toda a família. Risos, abraços, espanto! "Jesus, como assim Marcelinho?", perguntavam-se as primas da minha geração ao reencontrar o "priminho" que cresceu. Do outro lado, uma vozinha meiga: "Oxente, o padre... que desperdício!", lamentava Helena ao ver aquele francês de olhos azuis, praticamente um sósia do ator que faz o homem aranha, mas na versão adepta ao celibato. Enquanto isso, nós da faixa dos 25, que fingíamos nao ouvir as cobranças das tias "E vocês??? Quando vão casar???", resolvemos todas achar um lugar na igreja. "Eu só vou casar depois de 'Julho'. 'Julinho' é o filhinho do meu vizinho que tem 2 anos", brincavam. Eu, sempre meio desconfiada com as cerimônias religiosas e o 'até que a morte nos separe' que elas impõem , me vi chorando enquanto a imponente porta da igreja se abria, devagarinho, acompanhando as notas da marcha nupcial. Quando vi Marina, a noiva, de uma beleza que até doeu, virei pra Quel com cara de choro-alegre: "Aiiiiin! Quero casar na igreja!".
Depois de muitos soluços e fungadinhas de choro e emoção, seguimos, na confusão familiar típica ("O carro de Fulano tá cheio? E Sicrano vai onde? Tem carro pra Beltrano?"), para a impecável recepção. Em meio a camarões e prós secos da melhor qualidade, a alegria nem cabia. Até chegar a hora de jogar o bouquet! "Vai ser um pau da porra! Esse tanto de prima solteira", diziam. Coincidência ou sinal dos novos tempos?
- Bora, Tati!!! Mari vai jogar o Bouquet! - chamei minha inseparável prima
- Eu não vou não! Já peguei essa porra duas vezes e me deu um azar do carai! - respondeu ela no seu linguajar típico.
- Bora, poia! Só pra tirar onda...
- Sá p... ! Bora logo então.

Começa o vuco vuco. Estou lá, de mãos para o alto, bem na direção do bouquet, a exemplo das outras. Menos Tati, postada lá atrás, com um pró seco na mão direita e cara de desdém. Uma diva! "Joga, joga", gritavam. Mari lança o bouquet. Quel, ao meu lado, joga sujo e tira eu e Gabi da "competição" com seu indicador implacável nos nossas axilas! Baixei os braços caindo na gargalhada a tempo de ver o bouquet cair como uma luva, deslizando suavemente no colo de Tati que o agarrou incrédula:

-Nããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããõooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Essa porraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas, no final, foi só mais um motivo para rirmos em família. Que bom que os momentos felizes ficam guardados...
Aqui cabe revisitar um texto que postei em 2006, da Martha Medeiros: http://paticastro.blogspot.com/2006/08/do-casamento.html

Sunday, May 11, 2008

Do hippie

Voltando do almoço do Dia das Mães com minhas amigas cujas mães também estão em outro estado, deu uma saudadeeee da minha mainha. Imaginei o dia de hoje lá em casa. Café quentinho passado por Quel, bem de manhãzinha. Pão de queijo. Bolo de nozes. Pão fresquinho. Pimpinho ao pé da mesa. Mesa posta apontada para o céu da Savassi. Sorriso de mãe. Pensando nisso, caminhando no calçadão de Santa Maria, olhinhos baixos com o peso de tanta nostalgia, escuto um grito:
- Por favor! Me tirem do Rio Grande!, berrou um hippie sentado em posição de ioga com vários brincos artesanais em volta.
- Quem leu meu pensamento? - pensei olhando em torno.
Fui até ele...
- Má que houve, homi?
-Ah, esse lugar frio! Acho que o frio deixa o coração das pessoas mais frio...
Agradecido por eu ter ido puxar papo, me fez um brinco lindo: um 'bonequin' felizinho saltitando um reggae... e, a partir de agora, dançando na minha orelha direita.
Em casa ele parou de dançar. É que apertei forte o brinquinho, telefone bem junto ao ouvido, escutando com ternura cada palavra sorridente da minha mainha.

Friday, April 18, 2008

Da insustentável leveza do ser

"O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. (...) Tomás pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher) [...] O sono compartilhado era o corpo de delito do amor"

In: Kundera, A insustentável leveza do ser

Thursday, April 10, 2008

Da poesia televisionada

Estava dormindo. No sonho, uma voz masculina declamava uma poesia com uma música ao fundo. Abri os olhos, ainda semicerrados, reconheci Oswaldo Montenegro na tela da TV, violão e microfone, voz doce e olhos fechados, dizendo: "E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também". Levantei repetindo a frase na cabeça. Google: "E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também". Eis o poema na íntegra:
"Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade .
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo, se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia, e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.Porque metade de mim é amor, e a outra metade... também..."
Depois de conhecer a música da bailarina na voz dele, Oswaldo Montenegro me encantou mais uma vez, dez anos depois...

Friday, March 21, 2008

Tuesday, March 11, 2008

Do ontem agora

[Esperanças irreais]
[Expectativas desleais]
[Estruturas glaciais]
[Experiências difíceis especiais]
[Despedida (im)prevista]
.
.
.
[Hoje, inteira, uma mulher me habita]

Tuesday, February 26, 2008

Do Renato

Risadas, comentários de pé de página, confidências (para ele e mais ninguém!), amizade incondicional sem segundas intenções (rá!), cerveja com chuva e relâmpago, bolinhas de champagne. Ora bolhas, que saudade!
Com "tu", amore, la vie en rose!

Monday, February 18, 2008

Da amizade dos nossos tempos

Depois de seis meses, eu e Rena nos reencontramos em BH. Papo vai, papo vem, com tanta fluidez, que virei para ele com ternura:

- Quando a gente se revê, nem parece que ficamos tanto tempo longe, né?
- Pois é. Acho que amizade verdadeira não fica no status "offline". Fica, no máximo, "em horário de almoço"...
É nisso que eu acredito. Concordo plenamente, Rena.

Monday, January 28, 2008

Da cidade de São Miguel do Gostoso-RN

Mas quem vai para lá também é para ficar fora de área e temporariamente desligado...

Wednesday, January 23, 2008

Do amor (ou da paixão?)

"O caráter do verdadeiro amor oferece constantes similitudes com a infância: tem dela a irreflexão, a imprudência, a dissipação, o riso e as lágrimas"
Balzac, in: As Ilusões Perdidas

Wednesday, January 16, 2008

Da tentação

As festas e reuniões familiares na casa de tio Lula são conhecidas pela fartura de guloseimas feitas, a maioria, por ele próprio. Ele sai da cozinha com aquele rostinho bonachão trazendo até a varanda do seu belo apê- onde a família costuma se concentrar - nada menos do que churrasquinho, rosca salgada (depois embrulhadas em papel alumínio para nós), bobó de camarão, pãozinho de alho, picanha. Tudo, assim, de uma vez só. Fora a infinidade de chocolates, biscoitos e tortas que ele compra, dispostos numa fileira capaz de aniquilar qualquer dieta. Assim, a casa de Tio Lula é sinônimo de deleite ou desespero. Tudo depende da sua relação com o ponteiro da balança. É aí que entra a nossa personagem de hoje, Quel, minha irmã. Recém-chegada em Recife, seguiu para a casa do nosso querido e cozinheiro tio. "Putz, não posso exagerar tanto. Vou comer um pouco, o normal, mas depois escovos os dentes para não comer mais nada", pensou a esbelta Quel não sei porquê preocupada com a balança. No corpitcho dela, eu teria optado pelo deleite sem culpa. Colocou as poderosas escova e pasta de dentes na bolsa, "objetos-escudo", anti-celulites e gordurinhas póstumas. Resultado: ela escovou os dentes 11 vezes.
Quem é da nossa família entende, Quequel.

Friday, January 04, 2008

Da(quela) Saudade

Quando ela vem assim... rasgando... tudo fica tão sem sentido. O aperto no peito, sintoma de angústia, e só uma vontade de gritar, pedir um sinal que seja, além da matéria. Não posso mais ouvir teu riso, teus conselhos, nem a esperteza das réplicas afiadas como um estilete. Não posso mais ver as miçangas deslizando no fio do colar, a mão alisando o suor da testa e, em seguida, sobre a boca... nem - nunca mais - você deitada ao meu lado, no chão do quarto de TV, naquela hora que o soninho vem à tarde. Abrir os olhos e te ver, de conchinha, foi um suspiro de alívio depois de um sonho ruim... Só resta imaginar como você, hoje, agiria, o que diria, a expressão que seria... mas dói tanto sem nada a se agarrar, pegar, tocar. Só lembrar, lembrar tira o sono e o chão. Tão bom seria saber que você pode ainda ver tudo que de feliz está acontecendo. Um sinal ao menos podia... tipo latinhas de cerveja reluzindo nas nuvens e chuvinha de restinhos de cigarro...
Que falta você me faz.

Friday, December 07, 2007

Do futuro

Queria ser dona de academia de ginástica pra viver sarada e feliz liberando endorfinas.
Filosofar e teorizar, gosto mesmo é no boteco.
Vou-me embora pra Recife tentar achar meu norte.

Sunday, October 14, 2007

Do pós-moderno

Num domingo assim... tão londrino... estudar pós-modernismo...
Saudades de Londres, anos 80, quando eu nem sabia que habitava uma nomenclatura...

Sunday, April 29, 2007

Da verdade

O que não me mata me entristece, me enraivece, me desmerece, me entorpece, me engorda e não me fortalece.

As pessoas (professores, chefes e afins), autoridades sempre no meio daquele caminho que a gente acredita ser FINALMENTE aquilo que FINALMENTE queremos da vida poderiam tornar as coisas mais prazerosas em vez de só cagar na nossa cabeça. Por isso que é tão difícil achar essa tal felicidade. Tem sempre um coração de pedra no meio do caminho...

"Será que o postinho ainda tá aberto? Chocolate, coca e batata vão me deixar mais feliz até a próxima subida na balança! Será que o farmácia não me vende um rivotril sem receita? Não, não vende. Senão vai um serenus natureba mesmo. Preciso dormir essa noite, sem sonhar, esquecer por algumas horas que, há poucos meses, achei que seria tão diferente... que raiva! Continuo envelhecendo sem saber se um dia vou descobrir o que tem de bom pra se fazer o resto da vida..."

E tantas vezes me pego olhando pra essas autoridades que não têm riso... e dá um medo de me tornar uma delas no futuro... quando o que eu quero é só sorrir mais... e mais. Posso?

Saturday, April 14, 2007

Do tabagismo


Lauren Bacall, por favor

Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental --e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: "Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente!" Hitler não faria melhor.

Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.

Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco --tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da 'mulher com barba', fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil --e até contraproducente. Conheço gente que não fumava -- e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.

Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.

Fazemos assim: vocês ficam com o pênis, eu fico com Lauren.
(Por João Pereira Coutinho, colunista da Folha)

Falando nisso cabe uma do Quintana que adoro:
"Desconfia dos que não fumam, estes não tem sentimentos. Fumar é uma forma disfarçada de suspirar"