Saturday, April 14, 2007

Do tabagismo


Lauren Bacall, por favor

Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental --e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: "Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente!" Hitler não faria melhor.

Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.

Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco --tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da 'mulher com barba', fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil --e até contraproducente. Conheço gente que não fumava -- e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.

Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.

Fazemos assim: vocês ficam com o pênis, eu fico com Lauren.
(Por João Pereira Coutinho, colunista da Folha)

Falando nisso cabe uma do Quintana que adoro:
"Desconfia dos que não fumam, estes não tem sentimentos. Fumar é uma forma disfarçada de suspirar"

10 comments:

izabunda said...

caralho.
comecei lendo e pensando: pati escreveu isso?
daí suspirei. comecei ver vc lendo 2035 páginas por semana e naturalmente escrevendo assim. simples e gloriosamente assim. não que vc não pudesse fazê-lo, antes ou depois de tanta leitura. fato é, que depois da surpresa, logo te reconheci no texto.

caralho.
foi o que eu disse quando vi que o texto não era seu. fiquei meio murcha, mas entendi o segunte: vc está próxima, muito próxima. leia mais e escreva mais. sinta tudo. quero ler "esse texto" com a sua assinatura.

te amo.


em tempo: depois de 12 anos, pela primeira vez, penso em deixar de ser arrasadora e interessante. amo o cigarro e ele me ama. mas to querendo a separação. só não deixarei que isso me faça suspirar descaradamente. gosto do disfarce.

Quel said...

cof cof

:P

Wanderléa said...

Olha só, vou ser rápida e franca! Sou fumante sim! Não pela Lauren e outras expressivas figuras que marcaram épocas. Sou fumante não por vício mas pelo prazer de fumar. Gosto mesmo. Em algum lugar li uma frase que dizia que: "A VIDA É UMA AVENTURA DA QUAL JAMAIS SAIREMOS VIVOS!". Fumando ou não, iremos morrer, então façamos o que gostamos. politicamente incorreto? Imoral? Mau exemplo? Não me interessa mesmo. Não gosto de fumar em lugares fechados, não pelos outros, por mim mesma, representa um espécie de viagem dentro de mim mesma... Pra mim, fumar é "inspirar" como disse o poeta. É prazer. Se vou morrer de qualquer jeito, porque não fazer o que gosto? A morte só precisa de uma demominação para sê-la tal como é. Viver é perigoso. Fumar é só uma fatia irrisória desse perigo do qual, sinceramente, não tenho medo mesmo.

Roberto said...
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Mateus said...
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Pequena said...

Adorei esse texto. Gostei do seu blog também. Adorei estar aqui. Ficamos amigas.

Um beijo.

Elisa said...

É... acho que você vai ter que apagar muitos comentários ainda.

Mateus said...

Mulher que fuma é objeto sexual. O cigarro na mão de uma mulher é um atestado de facilidade. Continuem fumando, mulheres. Não parem. 80% de vocês só servem pra isso mesmo.

Mateus said...

Mulher que fuma serve pra pegar, jamais pra levar a sério.

m said...

Pelo menos em uma coisa concordamos, blogueira(o)... somos ambos a favor da ditadura e da CENSURA!

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