Wednesday, August 13, 2008

Do homem que queria ouvir “não” *

Foi Shakespeare quem disse pela primeira vez “The time is out of joint!”. Expressão intraduzível, mas que se assemelha ao nosso “O mundo está fora dos eixos!”. E o mundo está fora dos eixos! Pois ele queria ouvir um “não” dela. E talvez ele nunca consiga ouvir esse “não”, pois a gentileza brutal dela é incapaz desse ato generoso. Então ele recorre à ficção, como sempre recorreu para resolver os problemas insolúveis: desde sua timidez com poeminhas ordinários até sua frustração com monólogos entediantes. Então ele recorre à ficção para ouvir o “não”, mais precisamente ao diálogo:

– Você me deve uma conversa em particular.
– Desde quando?
– Desde aquela noite...
– O que você quer?
– Ouvir um “não”!
– Como assim?
– Sabemos que isto nunca dará certo. Mas o apaixonado super-interpreta os gestos, as atitudes, as palavras da amada. Então cada gesto seu, cada atitude sua, cada palavra sua, nisso tudo eu consigo enxergar uma esperança. Uma esperança fatalista, pois sabemos que isto nunca dará certo. Você ri de mim, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você me ignora, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Você mexe um dedo, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Ah, vivo em função de você, interpretando você...
– ...
– Você não responde, então logo penso: “Ela gosta de mim!”. Mas você não gosta, você não gosta! São apenas ilusões da super-interpretação que afeta o apaixonado. Que faz ele continuar em velocidade máxima no caminho errado.
– Você quer ouvir um “não”, só isso?
– Sim, você precisa apenas dizer: “Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!”. Talvez depois disso eu consiga levar minha vida em paz.
– Talvez?
– É, talvez. Nunca duvidei dos seus encantos...
– Você quer ouvir...
– ...um “não”, eu quero ouvir um “não”, apenas isso!
– Mas por que você quer ouvir um “não”? Por que você não quer ouvir um “sim”?
– Você me concederia um “sim”?
– ...
– Ah, o silêncio! O mesmo silêncio que eu ouço após as minhas brincadeiras constrangedoras e verdadeiras. Mas entre nós, quem cala não consente, certo?
(E aqui se encontra o limite perigoso deste jogo, pois se é uma ficção, se ele tem o controle de tudo, então por que não terminar em happy end? Não seria justo com ela, com sua personagem, obrigá-la a falar o que ele não sabe ou o que ele não quer saber. Mas também seria justo obrigá-la a falar o “não”? Justo não, mas talvez necessário?)
– ...
– Vamos terminar essa ladainha, por favor!
– Olha, isto nunca dará certo. Me esquece!

Ah, mas ele não esqueceu! Talvez por ser um “não” fictício. Pois a gentileza é brutal, a gentileza é brutal...

*Por um apaixonado...

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