Wednesday, June 10, 2009

Da dor que dói mais



Escrevi num post abaixo que a dor que dói mais é a da saudade, a dor de nunca mais saber de quem se ama... Dor emocional que também pode se manifestar no corpo. Mas ontem presenciei o oposto: uma dor física que irradiou na alma.

Acordei cedinho com minha irmã que gemia baixinho. Era cólica renal, decorrente de cálculo nos rins. Aquela dor que dizem ser pior que a de parto. Corri com ela para o hospital. Quel repetia "por favor, chega logo! Meu Deus, não tem posição que ajude a melhorar essa dor". E se revirava de um lado para o outro no táxi. Chegamos no Lifecenter, hospital conveniado de Belo Horizonte, e enquanto ela, pálida, se estirou no chão pedindo por favor para ser medicada, a recepcionista falava que, antes de encaminhá-la para a enfermaria, eu teria que preencher um cadastro.

-Não "sente" a dor dela? Deixa eu ir com ela até a enfermaria? Volto aqui e preencho depois - pedi
-Tem que preencher a ficha primeiro. Posso chamar uma enfermeira para ir com ela.
-Então chama, ué!

A enfermeira não aparecia. E minha irmã continuava no chão. Até que, sem querer, uma mocinha de branco apareceu. Gritei: "Enfermeira, ajuda a minha irmã aqui". E foram-se as duas escada abaixo. Eu continuei no balcão com a caneta na mão preenchendo a merda da ficha, a cabeça pensando mil palavrões e o coração doendo. Continuei:

- É um absurdo como vocês lidam com uma pessoa que visivelmente está sentindo tanta dor.
- É o protocolo... - falou a recepcionista virando as costas.

Dez minutos depois, cheguei na enfermaria e minha irmã ainda gemia de dor. Não tinha sido medicada ainda! Até que o médico apareceu. Apertou daqui, apertou dali e foi fazer a prescrição do analgésico: o nosso familiar buscopan. Ele ainda escrevia cinco minutos depois. Até que minha irmã perguntou: "Cadê, cadê o remédio?"

-Dr. não dá para agilizar o medicamento? Já tem 30 minutos que estamos aqui... - eu disse
- Estou preenchendo - disse-me olhando com a sobrancelha levantada e apontando para o papel.

Depois de feita, a enfermeira levou a receita até a farmácia, o que demorou mais de dez minutos. Depois ela preparou a seringa. Mais cinco minutos. Ou seja, desde que chegamos no hospital foram mais de 45 minutos para que fosse finalmente injetado buscopan na veia da minha irmã. Imaginem o que são 45 minutos para uma pessoa com cólica renal...! Menos de um minuto depois da droga ser injetada no sangue, ela não sentia mais dor.

E eu sentia a indeferença no rosto, no andar, na fala de cada um que nos rodeava. A dor, para eles, é sim algo corriqueiro. Só que acaba parecendo mercadoria barata mal paga pelos convênios. Voltei para casa meio anestesiada. Sozinha no quarto, comecei a pensar em tudo que ocorreu naquela manhã. Espontaneamente, explodi num choro convulsivo. Soluçava de raiva deles, de pena da minha irmã, de desilusão... Mais uma vez lidei com gente que não sabe acolher. E percebi que a dor que dói mais é a dor decorrente da banalização da dor que dói nos outros. Eu vi, de perto, a desumanização da saúde.

IMPORTANTE:

P.S- Esse texto é baseado no que eu presenciei. Não estou generalizando em relação à classe médica. Como a sociedade em geral, entre os médicos, também têm de tudo... Entendo como os convênios banalizam o trabalho desses profissionais ao pagarem uma quantia que não vale o trabalho que executam. Como diz um amigo meu médico: "Tem gente que gasta 300 reais no salão e ainda reclama do quanto paga numa consulta. Você tem noção do quanto a gente trabalha? E da importância do nosso trabalho?". Tenho sim, meus pais são (bons) médicos. Mas nada disso justifica a postura dos funcionários do Lifecenter. O sistema de saúde tá errado. Mas em quem tá doendo, não é justo fazerem doer mais.

17 comments:

Branca said...

Protocolo?

Indiferença, falta de amor ao próximo, crueldade mudaram de nome?

SE7 said...

Eu conheço este descaso... E procuro nunca ficar próximo a ele, porque já estou de tanto "saco cheio" disto que qualquer hora eu faço besteira.

Descaso médico é uma das coisas mais revoltantes do mundo. Afinal de contas é a profissão deles. É o mesmo que eu, profissional de comunicação, mentir. Juramentos não tem muita importância nos dias de hoje.

Revolta a alma.

PS: Conheço cólica renal de perto, (mas nunca as tive). Dizem que as maiores dores físicas são A Cólica Renal, Parto e Otite.

Karine said...

Eu já tive pedras nos rins e sei na pele o que Quel sentiu. É uma dor física indescritível. Pense também no caso de saúde pública onde essas e outras dores mal sao ouvidas.

Vi uma semelhança entre essa dor e a a da saudade no outro posto. Em ambas se tem alguém por perto que pode sanar a dor, mas esse alguém nao vem e a dor continua...

Bê Sant Anna said...

Ainda bem que eu não tava lá, e ainda bem que eu não ando armado. Detesto isso... ainda mais se penso que foi com a Quel...

Blog do Óbvio said...

Sabina, fico muito sensibilizado com esse acontecimento. Não podemos e não devemos nos conformar com isso. Devemos exigir que o mundo, conforme Deus o criou, volte a ser para o ser humano e não o ser humano para carregar o mundo nas costas. Com a valorização do DINHEIRO, o ser humano virou sucata. Vou dizer por mim mesmo agora. Não é conselho para outrem. É prá mim mesmo:
* Será que quando vejo aquele homem com dor de fome, o estômago chorando lá no fundo, eu me sensibilizo ou atravesso a rua e deixo a "oportunidade" de ajudá-lo para outro.
* Será que pergunto ao meu colega engenheiro, desempregado faz um ano e esposa desempregada, se precisa de algo para água, luz, escola, COMIDA, etc..., ou fujo correndo e simulando pressa quando o encontro meio que desesperado. Seria difícil reunir todos os amigos em comum e fazermos uma "vaquinha" para ajudar um batalhador?!........
Não vou me alongar senão escrevo um livro aquí, mas acho que deu prá perceber que temos que tomar rapidamente uma atitude e qual atitude deve ser tomada.
Quando "caiu minha ficha", formamos rapidinho um grupo tipo uma "ONGUINHA" para ajudar, protestar e pelo menos empurrar para que as coisas voltem para o seu devido lugar. Beijinhos condoidos. Manoel.

Cruela Cruel Veneno da Silva said...

vai com fé gata.

Filomena Butterfly (Filó) said...
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Cruela Cruel Veneno da Silva said...

já tive cólica renal... vespera de natal, o medico falou:
- muito liquido
- pode chopp dr?
- um barril.

Minha irmã teve ai em bh, por sorte eu estava aí... pq eu que mando a buscopan na veia desse povo.

Graziela Motta said...

"a dor que dói mais é a dor decorrente da banalização da dor que dói nos outros"
É na saúde, é no coração.

Roberta said...

Sabina a maior dor é a indiferença..sem dúvida.. passei por situação parecida com a minha mãe e se não fosse o verniz social teria quebrado o barraco no hospital...

beijos.

Nina said...

No filme "Encontro marcado" (com Brad Pitt), tem uma cena em que ele está no hospital e se depara com uma velha de cadeira de rodas doente e antes de ser atendida a filha da mesma tbm teve q preencher uma ficha.
Globalização!!

Afff

Renata Feldman said...

Sabina, cara colega blogueira, compartilho da sua dor e a parabenizo pelo post. Já passei por isso uma vez, também no Lifecenter (nunca mais ponho os meus pés lá). Estava grávida e o meu marido urrando de dor (o caso dele era pedra na vesícula, mas os médicos simplesmente diagnosticaram como gases...). Se quiser, posso te mandar por e-mail o texto que escrevi na época, intitulado "A dor aguda e a aguda negligência do doutor.".
Um abraço, melhoras para a sua irmã,
Renata Feldman.

Leandro de Souza said...

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros

Cesar Cruz said...
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Cesar Cruz said...

Existe uma coisa horrorosa, que não nos atemos, e ficamos pensando: por que tanto descaso, tanta indiferença, meu Deus!

Mas não é exatamente isso... é pior. Bem pior. Sabe o que é? É o prazer humano em deter o poder e, com ele, poder decidir quem bebe e que morre de sede. Há um sadismo nisso, um prazer em se mostrar que se é autoridade sobre algo, ainda mais se esse algo for a sorte alheia. Hitler, entre outros, sentiam esse prazer mostruoso. E muitos de nós também o sentimos, mas não confessamos, nem a nós mesmos.
O ser humano é mostruoso, Sabina.

bj
Cesar

DUDA said...

Pat, seu velho tio aqui de Recife sabe exatamente a dor de sua irmã. É algo que não tem como explicar. Simplesmente é a pior dor do mundo. Ponto final. Agora doeu ler esse teu texto porque o tratamento dado em um hospital conveniado seja a ser chocante, agora imagine nas Restaurações da vida. Tanto aqui em Recife como aí em B.H. A burocracia está assassinando o exercício das profissões da saúde ? Prematuro dizer porque tem o outro lado. As pressões, as jornadas, os salários vergonhosos. Mas tudo isso eu tenho vivido no banco desde 1983 e não perdi minha humanidade . Então qual o motivo para um profissional de saúde perder a sua humanidade? Parabéns pelo seu blog. Muito bom mesmo. Torço pela sua abstinência com relação ao cigarro. Com relação ao alcóol eu sou suspeito de falar porque sou um pinguço nato. Agora tenho me mantido longe da pólvora, do risco. Ser careta hoje, prá mim aos 4.8 é a melhor loucura do mundo. Tenho escrito uns poeminhas , uns textos, comentado em blogs de amigos (e sobrinhas) e principalmente vivendo em paz com Ana e os meninos. Isso não tem preço. Um grande beijo. Fica com Deus. Teu tio Duda que te ama muito.

Sabina Insustentável said...

Tio, que surpresa te ver por aqui!!! Adorei seu comentário e saber que vc está em paz! Volte sempre aqui e me mande seus poeminhaaaaas!
Um beijo da sobrinha q tb mto te ama.

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