Wednesday, August 13, 2014

A guerra na Palestina: ouvindo o que Israel tem a dizer (Parte 4)

Por Thiago C.S.
Tópicos abordados nessa parte:
- Os palestinos recusam uma oferta generosa;
- A retirada israelense de Gaza e a ascensão do Hamas;
- A escalada atual do conflito e sua cobertura pela imprensa mundial


Os palestinos recusam uma oferta generosa

Voltemos nossa atenção para anos mais recentes. Em 2000, Israel ofereceu entregar de volta aos palestinos 97% da Cisjordânia e a totalidade da Faixa de Gaza. Também propôs compensar a anexação dos 3% do território da Cisjordânia – que teriam valor estratégico para a defesa de Israel – com o desmantelamento de 63 assentamentos judeus e com a cessão de territórios em Negev, que seriam acrescidos à Faixa de Gaza.

O primeiro ministro israelense, Ehud Barak, propôs ainda o que, até então, era inimaginável: daria aos palestinos o controle de bairros árabes no leste de Jerusalém, que passariam então a ser a capital do Estado Palestino. Os palestinos também passariam a ter controle sobre locais que consideravam sagrados, com exceção de pedaços do Muro Ocidental (popularmente conhecido como Muro das Lamentações).

Barak também garantiu o direito de refugiados árabes de retornar ao Estado Palestino e propôs que eles recebessem reparações que viriam de um fundo de U$30 bilhões que seria levantado por doadores internacionais. Segundo o negociador Dennis Ross uma solução foi pensada para tornar o Estado Palestino contínuo: uma via expressa, sem qualquer ponto de controle israelense, ligaria Gaza à Cisjordânia.

Ao líder palestino, Yasser Arafat, foi pedido que concordasse com a manutenção de três bases defensivas no Vale do Jordão, as quais Israel se comprometia a abandonar após seis anos de paz. E, claro, que admitisse o fim definitivo do conflito com os israelenses. Arafat rejeitou o acordo.

O que se seguiu às negociações fracassadas ficou conhecido como Segunda Intifada, um conflito que se estendeu até setembro de 2005 e causou a morte de mais de 5000 pessoas. 

A retirada israelense de Gaza e a ascensão do Hamas

Até 2005, havia uma pequena comunidade, cerca de 8.500 judeus, vivendo na Faixa de Gaza. Um número irrisório, se comparado aos 1,4 milhões de árabes palestinos que ali viviam. Essa pequena comunidade criou uma indústria de frutas, verduras e flores que respondia por 20% de todo o produto interno bruto da região. Ocorre que, após o fracasso das negociações de paz e com a nova escalada do conflito armado, Israel decidiu estender as cercas de segurança ao longo das fronteiras com Gaza e com a Cisjordânia para impedir a entrada de homens-bomba – o que reduziu consideravelmente o número de ataques – e remover todos os judeus que viviam na Faixa de Gaza, retirando suas forças militares da região.

Após a saída dos judeus da faixa de Gaza, alguns filantropos (entre os mais proeminentes, o Judeu americano Mortimer Zuckerman) levantaram 14 milhões de dólares para comprar as estufas utilizadas pela indústria criada pelos judeus na região, com o objetivo de doá-las aos palestinos. Porém, tão logo as tropas israelenses se retiraram, boa parte das estufas foi saqueada ou destruída.

Em 2006, quando os palestinos puderam votar, após 10 anos, em uma eleição legislativa, escolheram como força política governante o Hamas, a organização terrorista cujos objetivos declarados são a destruição de Israel e o estabelecimento de uma nação islâmica “do Jordão até o mar” e que tem como lemas frases do tipo: “Nós desejamos a morte tanto quanto eles (judeus) desejam a vida”; “Matar Judeus é uma adoração que nos aproxima de Allah”.  

A escalada atual do conflito e sua cobertura pela imprensa mundial

Nas últimas semanas testemunhamos à mais recente escalada do conflito entre o Hamas e Israel. Assistimos cenas chocantes mostrando o sofrimento e a morte de centenas de civis, principalmente mulheres e crianças palestinas, que caíram vítimas de ataques que incluíram alvos como escolas e residências. Vimos líderes mundiais e comentaristas políticos de emissoras de dezenas de nações condenando a “desproporcionalidade dos ataques israelenses”. Um fato destacado por todas essas pessoas influentes foi a enorme discrepância tanto entre o poder de fogo dos dois lados, quanto das baixas que cada parte sofreu, afinal para cada israelense morto, dezenas de palestinos perderam suas vidas. Segundo o consenso internacional, Israel é o principal culpado pelo alto número de civis palestinos mortos.

Contudo, um fato importante recebeu pouca atenção tanto da cobertura jornalística internacional, quanto das lideranças de diversos países: enquanto Israel passou décadas aprimorando os mecanismos que lhe permitem defender seus civis, os extremistas palestinos concentraram esforços em apelar para a demonização dos judeus e em glorificar o uso de civis como escudos humanos. O Hamas não distingue civis de soldados, seja do lado israelense – onde alvos civis são propositalmente atacados por terroristas –, seja do próprio lado palestino onde mesquitas, escolas e residências são usadas como depósitos de armas ou células de inteligência terrorista; e civis, especialmente mulheres e crianças, são incentivados a se reunir em locais que sabidamente serão alvejados pelas forças israelenses. Seguem dois links para notícias da ONU condenando (o que não é feito, nem de longe, com a veemência ou frequência necessárias) essa prática imoral do Hamas, AQUI AQUI; e uma entrevista feita ao vivo em que um porta-voz do Hamas convoca o povo palestino a atuar como escudos humanos. 

É preciso atentar que, enquanto a Declaração de Independência de Israel promete plena cidadania aos árabes que escolheram viver em seu território (há, hoje, aproximadamente 1.7 milhão de cidadãos árabes em Israel; o parlamento israelense possui 12 membros árabes; e há um integrante árabe na Suprema Corte do país), o estatuto do Hamas declara “que Israel existe e continuará a existir enquanto o Islã não o obliterar, assim como obliterou outros antes dele” e que “chegará o dia em os judeus se esconderão atrás de pedras e árvores e estas gritarão: ‘há um judeu atrás de mim, venha matá-lo' ”.

Essa é a organização responsável pela morte de 160 crianças utilizadas como mão de obra na escavação de tuneis que seriam usados pelos terroristas para invadir território israelense com o intuito de assassinar e sequestrar civis. Como negociar com um inimigo dessa natureza?

O Hamas é uma organização com as mesmas características do EIIL (ISIS, em inglês) - outro grupo que considera os judeus "crias de porcos e macacos". Como essas organizações não se envergonham das próprias ações, é possível encontrar vídeos filmados por seus próprio integrantes em que cometem crimes bárbaros contra aqueles que consideram "infiéis".   Embora pouquíssima divulgação lhes tenham sido dadas, será que as ações desse  vídeo não merecem um protesto mundial muito mais eloquente do que os que Israel tem sido alvo? 

Uma interessantíssima e surpreendente entrevista conduzida ao vivo – com legendas em português que podem ser ativadas no YouTube – resume bem a indignação de autoridades israelenses em relação à postura da imprensa internacional e, em especial, de boa parte da grande imprensa americana. Não me recordo de nenhum entrevistado que tenha conseguido causar tamanho desconforto a um âncora de televisão (nesse caso da CNN), como o fez o embaixador israelense nos EUA, Ron Dermer, nesse vídeo. 


A tradução integral do diálogo (feita de forma muito competente por Felipe Moura Brasil), pode ser lida AQUI.

Sobre a nota do Sr. Ban Ki-moon, lida ao vivo pelo embaixador, é preciso destacar que soa um tanto inverossímil que o presidente da ONU esteja verdadeiramente surpreso com o fato de o Hamas utilizar escolas e outras instalações civis para armazenar armas, afinal essa estratégia é conhecida há anos, estando amplamente documentada (vídeos, fotos e documentos que comprovam essas ações atrozes estão disponíveis para qualquer um que se disponha a fazer uma rápida pesquisa na internet). Aliás, a atuação da ONU nesse conflito e o funcionamento das escolas onde mísseis do Hamas foram encontrados merecem um artigo exclusivo. Algumas denúncias graves que deveriam ser seriamente investigadas podem ser conferidas AQUI

Hillel Neuer, diretor executivo da UN Watch (cuja missão é monitorar o desempenho da ONU pelos critérios de sua própria Carta), em sessão de emergência do Conselho de Direitos Humanos da ONU, realizada em 23/07/14, fez um discurso contundente em que denuncia o relativismo moral e a hipocrisia daqueles que condenam as ações recentes de Israel, mas se calam diante de genocídios e extermínios praticados por outros países. Neuer tinha acabado de retornar de Israel onde presenciou um ataque do Hamas que alvejou civis com foguetes. Clique AQUI, para assistir o vídeo.




É interessante notar quais foram os países que tentaram interromper o discurso do observador e como se pronunciaram sobre Israel:

 - O Irã,    o segundo país que mais executa no mundo (muitas das execuções são realizadas em praça pública) e que em inúmeras ocasiões condenou à morte pessoas pelos "crimes" de terem "renunciado à fé" ou de serem homossexuais, acusou Israel de "limpeza étnica e de crimes de guerra". Também é importante lembramos que o Irã, segundo confissão de integrantes da própria organização, é um dos financiadores do Hamas. 

- A Síria, país em que jihadistas crucificam cristãos pelo simples motivo de não professarem a fé muçulmana e onde cerca de 1800 árabes palestinos foram  massacrados nas últimas semanas –  700 em apenas dois dias –, acusou Israel de ter “uma mente racista e criminosa”.

- O Sudão, atualmente palco do que é provavelmente o mais grave conflito étnico do mundo (500.000 mortos e 2,8 milhões de desalojados), onde milícias financiadas pelo governo, conhecidas como Janjaweed, destroem os darfurianos queimando e saqueando suas vilas, poluindo suas fontes de água, torturando, estuprando (homens, mulheres e crianças) e assassinado civis, denunciou: "O massacre e o genocídio continuam sendo realizados por Israel".

Outros campeões mundiais em desrespeito aos direitos humanos (clicar nos nomes dos países para acessar o respectivo relatório atual elaborado pela Human Rights Watch) que criticaram Israel durante a sessão: ArgéliaVenezuelaEgito e Cuba.

A atual operação militar israelense em Gaza foi denominada de “Limite Protetor”. Para que tiver interesse, esse curto vídeo é uma versão legendada do original divulgado pelo Primeiro Ministro de Israel, que explica resumidamente algumas de suas características principais.

Por fim, reitero que esse texto – e obviamente muito ficou de fora – foi escrito com o objetivo de ser um contraponto à narrativa que parece ser o consenso entre jornalistas e líderes políticos. Todos os fatos aqui descritos podem ser encontrados em fontes de informação de domínio público e podem ser pesquisados por qualquer um que deseje refutá-los ou confirmá-los.

E, claro: quem desejar comparar as narrativas sobre o conflito em Gaza inevitavelmente se deparará com os seguintes questionamentos: qual delas é a mais verossímil? Ou ainda, qual parece apresentar um contexto histórico honesto para os fatos? E por fim: qual lado merece maior credibilidade?

Nas partes anteriores:

 *Parte relevante das informações relatadas nesse texto (dividido em quatro partes) foram extraídas dos livros “Myths and Facts: A Guide to the Arab-Israeli Conflict”, de Mitchell G. Bard (https://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/myths3/mftoc.html); e “Why Israel is the Victim”, de David Horowitz (http://www.frontpagemag.com/2013/david-horowitz/why-israel-is-the-victim/ ).

Outras referências utilizadas nessa parte:






Sunday, August 10, 2014

A guerra na Palestina: ouvindo o que Israel tem a dizer (PARTE 3)

Por Thiago C.S.
Tópicos abordados nessa parte:

- As Guerra de 1948 e 1967

As Guerras de 1948 e 1967


Quando o terceiro Estado Judeu na palestina – Israel – foi criado, em 1948, sobre uma pequena parcela das ruínas do Império Otomano, cinco das nações árabes que recusaram aceitar a partição feita pelas Nações Unidas atacaram o país que tinha apenas um único dia de vida. Entre os agressores, o Egito, que atacou Israel pelo que hoje conhecemos como Faixa de Gaza. 

Israel triunfou na sua defesa contra os invasores e os repeliu, aumentando seu território de aproximadamente 12% do Mandato Palestino Original para cerca de 18%. O restante do território palestino definido pela partição da ONU teve uma parte (que conhecemos hoje como Faixa de Gaza) anexada pelo Egito e outra (que hoje conhecemos como Cisjordânia, ou Margem Ocidental) pela Jordânia. Não houve nenhum protesto internacional contra as anexações realizadas por esses dois países árabes. Tampouco houve iniciativa por parte dos árabes palestinos que ali viviam em criar um Estado próprio. 

Fronteiras de Israel e das áreas anexadas por Egito e Jordânia após a guerra de 1948

Em mais de uma ocasião, antes da guerra de 1948 eclodir, as lideranças judaicas conclamaram os árabes que viviam no território que daria origem ao Estado de Israel a permanecerem em seus lares e a se tornarem cidadãos do Estado que surgia, com os mesmos direitos dos judeus e com a devida representação em suas instituições políticas. Esse apelo consta até mesmo do próprio documento de Proclamação da Independência de Israel. Mas o êxodo árabe se iniciou antes mesmo da criação do Estado judaico, fomentado principalmente pelo medo da guerra iminente. Com o a eclosão do conflito, dezenas de milhares de outros árabes se tornaram refugiados, bem como dezenas de milhares de judeus, que foram expulsos dos países árabes em que viviam.

Cabe questionarmos: quanto melhorou a vida dos árabes desses territórios anexados por países também árabes?  E a vida dos judeus refugiados durante e após esse conflito – quase 600.000 entre 1948 e 1972 –, que foram recebidos e tornados cidadãos de Israel? Quem é capaz de questionar que os cerca 1 milhão e 700 mil árabes palestinos que hoje vivem em Israel possuem mais direitos e privilégios do que a população em geral de quaisquer países árabes? O Parlamento israelense possui membros árabes desde sua criação em 1949 (são 12 os membros árabes na legislatura atual), alguém imagina que tratamento semelhante seja dado a judeus em algum território árabe?

Quase vinte anos depois, em 1967, o ditador Egípcio Gamel Abdel Nasser anunciou seu plano de, nas palavras dele, “destruir Israel”. Milhares de tropas foram enviadas às fronteiras de Israel, não só pelo Egito, mas por outros países árabes fronteiriços. Israel então, no que ficou conhecido como a “Guerra dos Seis Dias”, atacou o Egito e a Síria, e, após seu pedido para que não se envolvesse no conflito ter sido recusado, atacou também a Jordânia. Após a vitória avassaladora, Israel se negou a retirar seus exércitos da faixa de Gaza, da Península do Sinai, e da Cisjordânia porque os invasores árabes se recusaram a negociar um tratado formal de paz.

Israel e os Territórios ocupados (destacados em verde) após vitória na Guerra dos Seis Dias

Mesmo assim, em 1978, Israel devolveu ao Egito a totalidade da Península do Sinai, uma região rica em petróleo e de área maior que o Estado de Israel inteiro, porque o Egito, sob nova liderança, assinou um acordo de paz com Israel. Embora as dificuldades de Israel para manter o território tenham ficado evidentes, cinco anos antes, na guerra de 1973 (iniciada por um ataque surpresa liderado por Egito e Síria e apoiado por outras nove nações), a concessão realizada pelos israelenses para garantir o acordo impressionam: Israel abriu mão de 7000 mil lares judeus (muitos dos judeus assentados, inconformados em terem que abandonar suas casas e negócios, foram removidos à força pelo exército israelense);  instalações militares; localidades estratégicas para a defesa do país; e campos de petróleo avaliados em bilhões de dólares que, se ainda tivessem em poder de Israel, teriam tornado a nação, hoje, energeticamente autossuficiente (um dos campos, Alma, foi descoberto e desenvolvido por Israel e já era a maior fonte de energia do país, atendendo à metade de sua demanda energética). Essa enorme concessão, porém, parece ter valido a pena, visto que a paz selada com Egito, embora não amistosa, perdura até hoje. Em 1981, Anwar Sadat, o presidente Egípcio que selou a paz com Israel, pagou com a vida pela declaração de paz: foi assassinado por radicais árabes.

Israel Hoje


Israel e as vinte e duas nações da Liga Árabes. Apenas três nações da liga reconhecem a existência do Estado de Israel: Egito (acordo de paz de 1979); Jordânia (acordo de paz de 1994); e Mauritânia (1999. Porém os dois países cortaram relações diplomáticas em 2010)

Na próxima parte:

Nas partes anteriores:

 *Parte relevante das informações relatadas nesse texto (dividido em quatro partes) foram extraídas dos livros “Myths and Facts: A Guide to the Arab-Israeli Conflict”, de Mitchell G. Bard (https://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/myths3/mftoc.html); e “Why Israel is the Victim”, de David Horowitz (http://www.frontpagemag.com/2013/david-horowitz/why-israel-is-the-victim/ ).

Outras referências utilizadas nessa parte:

Saturday, August 09, 2014

A guerra na Palestina: ouvindo o que Israel tem a dizer (PARTE 2)


Por Thiago C.S.
Tópico abordados nessa parte:

- O Mandato Britânico da Palestina e a moderna divisão territorial do Oriente Médio

O Mandato Britânico da Palestina e a moderna divisão territorial do Oriente Médio

O movimento sionista conseguiu uma grande vitória em 1917, com a Declaração de Balfour, do então secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, dirigida ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, para ser transmitida à Federação Sionista da Grã-Bretanha. A carta se refere à intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do “Lar Nacional Judeu na Palestina”, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região (o que de fato ocorreu com o término da Primeira Guerra Mundial e a subsequente assinatura do Tratado de Sèvres em 1920 e sua ratificação pelo Tratado de Lausan ne em 1923).


Império Otomano -  A parte mais escura corresponde ao território dominado pelos turcos no momento em que teve início a Primeira Grande Guerra. A  região da Península da Anatólia daria origem, alguns anos depois, ao moderno Estado da Turquia. A quase totalidade do território restante seria divido pelos Franceses e Ingleses e daria origem a: Síria, Líbano, Iraque e ao Mandato Palestino.

Os sionistas, porém, só viram a promessa de um estado judeu se tornar realidade mais de duas décadas depois. Após a queda do Império Otomano (que não era um império árabe, mas turco). Ao fim da Primeira Grande Guerra, Ingleses e Franceses dividiram o território da potência derrotada, o que deu origem aos modernos Estados da Síria, Líbano e Iraque.  Todos árabes. Já os turcos conseguiram manter o domínio sobre a Península da Anatólia, onde hoje existe a Turquia. O território restante, conhecido como "Mandato Britânico na Palestina" (ou simplesmente, Mandato Palestino, ou ainda Protetorado Britânico da Palestina), teria, segundo promessa do Império Britânico, uma parcela destinada ao estabelecimento do “Lar Nacional dos Judeus”.


Os novos Estados árabes, Líbano, Síria e Iraque. O pedaço restante (indicado no mapa como Transjordânia e Palestina, pois assim foram divididos posteriormente) corresponde ao Mandato Palestino.


Mandato Britânico na Palestina

Porém, em 1921, quase 80% do Mandato Palestino foi entregue aos Hashemitas – uma dinastia árabe –, dando origem ao que hoje conhecemos como Jordânia, ficando os judeus proibidos de se estabelecer na região. O que restou do território – o pequeno trecho entre a margem ocidental do Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – continha assentamentos tanto de árabes quanto de judeus.


Transjordânia (Jordânia)

A pressão para o estabelecimento de uma pátria judaica ganhou contornos dramáticos a partir do Holocausto Nazista, que vitimou 6 milhões de judeus, e, em 1948, as Nações Unidas votaram por particionar o restante do Mandato Palestino – a parte que não havia sido dada à Jordânia – para criar um Estado Judeu.
Segundo o plano de partição, foram entregues aos árabes uma porção de terra ao oeste do Rio Jordão e uma faixa de terra ao longo do mediterrâneo e da fronteira com o Egito. Aos Judeus, foram concedidas três faixas descontínuas de terra: uma ao longo do Mediterrâneo; outra no Deserto do Sinai; e uma terceira na fronteira com Líbano, Síria e Jordânia. Jerusalém ficaria em um enclave administrado temporariamente pelas Nações Unidas. O pedaço que coube aos judeus, bem menor que do que as pretensões originais dos sionistas, correspondia a cerca de 12% do Mandato Palestino original e 60% dessas terras estavam localizadas no Deserto de Negev. Dessas partes pouco promissoras, os judeus criaram Israel, em 1948.    

Partilha dos 20% restantes do Mandato Palestino após a criação da Transjordânia (80% do Mandato Palestino Original), o quarto Estado Árabe criado a partir da divisão do extinto Império Turco Otomano. 

Assim, das ruínas do Império Turco Otomano – derrotado na Primeira Guerra Mundial – surgiram além do moderno Estado da Turquia, quatro Estados árabes: Síria, Líbano, Jordânia e Iraque. E, em 29 de novembro de 1947, foi definida a criação de um quinto Estado Árabe que nasceria junto com o Estado Judeu.

É interessante notar que essa região, antes de ser incorporada pelo Império Otomano, havia sido parte do Império Romano do Oriente, que por sua vez integrou um antes unificado Império Romano. E boa parte do Mandato Palestino original, antes de ser conquistada pelos romanos, era um território hebreu.

É preciso salientar que jamais houve um Estado Palestino onde hoje está localizado Israel e que o movimento para a criação de uma nação de árabes palestinos só se tornou relevante após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Os árabes que viviam na região acreditavam, em sua maioria, fazer parte de uma nação identificada como a “Grande Síria”, que englobaria toda a região onde hoje estão Líbano, Síria, Jordânia e Israel (e segundo alguns, também o Iraque).   

Houve, isso sim, antes das conquistas romanas, dois outros Estados judeus naquela região, embora nos últimos séculos essa área tenha sido habitada tanto por judeus como por árabes. Assim, à época do nascimento de Israel, árabes palestinos viviam em 88% do território do Mandato Palestino original e nos 12% restantes, alocados a Israel, viviam cerca de 800.000 árabes e cerca de 650.000 judeus (esse número aumentaria rápida e extraordinariamente como resultado do influxo de judeus vindos da Europa e de regiões as mais diversas do Oriente Médio – de onde foram expulsos).

Os judeus aceitaram a partição final do Mandato. Mas as nações árabes o recusaram: cinco delas –Síria, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito –  invadiram o Estado de Israel em seu primeiro dia de existência, dando início à guerra de 1948.

Na próxima parte: As guerras de 1948 e 1967.


 *Parte relevante das informações relatadas nesse texto (dividido em quatro partes) foram extraídas dos livros “Myths and Facts: A Guide to the Arab-Israeli Conflict”, de Mitchell G. Bard (https://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/myths3/mftoc.html); e “Why Israel is the Victim”, de David Horowitz (http://www.frontpagemag.com/2013/david-horowitz/why-israel-is-the-victim/ ).
Outras referências utilizadas nessa parte:

Friday, August 08, 2014

A guerra na Palestina: ouvindo o que Israel tem a dizer (PARTE 1)

Por Thiago C.S.

Tópicos abordados nessa parte:
- Introdução;
- Antissemitismo e o movimento sionista moderno

Introdução

Parece haver se formado um quase consenso entre jornalistas e líderes políticos no sentido de que Israel possui a maior parcela de culpa quanto à recente escalada de violência na Faixa Gaza. Porém, boa parte da cobertura jornalística parece aceitar sem ressalvas que a narrativa do Hamas, uma organização terrorista, tem a mesma credibilidade daquela defendida pelo Estado de Israel. Ao mesmo tempo, pouco foi dito em relação às origens do conflito e ao seu contexto histórico.

Mas será mesmo que Israel e seus adversários são moralmente equivalentes? Há alguma plausibilidade no argumento de que Israel promove intencionalmente o genocídio de civis, ou, que, no mínimo, não faz qualquer esforço para evitar tais baixas? Qual o interesse de Israel em cometer tais atrocidades e se tornar um pária diante da opinião pública mundial?

Por outro lado, a morte de civis parece ter fortalecido enormemente a estratégia do Hamas em relação ao conflito; e não é nenhuma novidade que essa organização adota a prática de utilizar escudos humanos, como está fartamente registrado em vários discursos de seus integrantes. Não seria, então, o Hamas o maior culpado pela morte de civis palestinos?

A disparidade moral entre Israel e seus inimigos parece ser sem dúvida a questão central desse conflito. E poucos discursos captaram tão bem essa diferença quanto o de Sam Harris – concordemos ou não com ele em relação a outros tópicos – que pode ser conferido, com legendas em português, AQUI (há imagens fortes):

Contundo, o que temos visto na maioria dos meios de comunicação é uma avalanche de colunas e matérias escritas por gente que obviamente jamais se deu ao trabalho de estudar sequer algumas horas sobre o assunto. A Folha de São Paulo, o jornal de maior circulação no país, chegou ao cúmulo da irresponsabilidade quando, na semana passada, deu ampla divulgação a uma coluna em que uma evolução histórica sabidamente desonesta do território palestino foi vendida como prova de uma sanha genocida e colonialista de Israel. Há uma enorme diferença entre publicar uma opinião e fomentar a disseminação de uma mentira abjeta.

Parece-me, portanto, importante fazer um contraponto a esse consenso que está se formando. É necessário ouvir com atenção o que Israel tem a nos dizer*.

Quem desejar comparar as narrativas inevitavelmente se deparará com os seguintes questionamentos: qual delas é a mais verossímil? Ou ainda, qual parece apresentar o contexto histórico mais honesto para os fatos? E por fim: qual lado merece maior credibilidade?

Antissemitismo e o movimento sionista moderno

Sim, Israel tem sua parcela de erros e de responsabilidade em atos atrozes ocorridos nos diversos conflitos em Gaza e na Cisjordânia. Mas uma análise cuidadosa dessas guerras e de suas origens parece não deixar margem a dúvidas de que Israel sempre foi o lado que mais buscou a resolução diplomática para esses conflitos, bem como aquele que procurou se ater aos princípios morais que disciplinam sua própria sociedade e às leis internacionais que regem conflitos armados.

Para entender a guerra na palestina, porém, é preciso conhecer minimamente as origens do antissemitismo que marca a existência povo Judeu, bem como da própria divisão territorial do Oriente Médio.

O antissemitismo é um movimento milenar. No entanto, a maioria de nós possui apenas um vago conhecimento de seu pico mais recente, que ocorreu durante a segunda guerra mundial, quando o genocídio de 6 milhões de judeus foi patrocinado pelo Estado nazista alemão. Porém, desde seu surgimento, há mais três milênios, os judeus sofrem perseguição.

Uma rápida pesquisa é suficiente para identificar vários eventos de perseguição aos judeus, que vão desde o processo de helenização forçada promovida pelo Império Selêucida, que tornou ilegais, no ano de 167 AEC,  as tradições judaicas, passando pela atribuição de culpa aos judeus pela Peste Negra durante a Idade Média e pelos diversos pogroms (limpezas étnicas) que se espalharam pelo Oriente Médio e norte da África após o “Caso Damasco” – no qual membros da comunidade judaica de Damasco foram acusados de assassinatos rituais. Também foram intensas as ações antissemitas perpetradas na Russia Czarista (e posteriormente na União Soviética) e na África do Sul.    Outras dezenas de eventos menos conhecidos relacionados à perseguição de judeus ocorridos nos últimos séculos são listadas AQUI

Essa animosidade contra os judeus é central para entender o movimento sionista. O moderno movimento político para a criação de uma nação judaica na palestina tem em Theodor Herzl,  autor do panfleto “O Estado Judeu”, publicado em 1886, seu primeiro grande líder. Boa parte dos sionistas acreditava que o preconceito contra judeus era alimentado pelo fato de estes não terem, desde a diáspora promovida pelo Império Romano em 70 EC, uma nação própria e, portanto, de serem sempre vistos como intrusos em qualquer comunidade.   Imaginavam que se os judeus tivessem sua própria nação – e a Judeia parecia um local lógico – passariam a ser como todos os outros povos e que o antissemitismo perderia sua força.

*Parte relevante das informações relatadas nesse texto (dividido em quatro partes) foram extraídas dos livros “Myths and Facts: A Guide to the Arab-Israeli Conflict”, de Mitchell G. Bard (https://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/myths3/mftoc.html); e “Why Israel is the Victim”, de David Horowitz (http://www.frontpagemag.com/2013/david-horowitz/why-israel-is-the-victim/ ).
Outras referências utilizadas nessa parte:

Sunday, May 04, 2014

Não choramos a morte de nossos heróis, celebramos nossos bandidos.

Texto por: Thiago C.S.

Familiar sequestrado, amigos baleados e fisicamente limitados para o resto da vida, parentes de pessoas muito queridas e próximas a mim assaltadas e assassinadas ao sair da igreja ou ao abrir a loja onde trabalhavam. Mudei-me do Recife em 2005 e um dos principais motivos que me faziam querer deixar a cidade era não aguentar ver o quanto a violência estava próxima de mim.

Lembrei disso hoje, ao ficar sabendo que um colega de trabalho meu, pessoa digna e do mais alto padrão moral, foi, junto com a esposa e família, vítima, no mesmo dia!, de dois crimes violentos ontem, aqui em Brasília (em Águas Claras para ser mais exato). No primeiro, ele, que acabava de chegar de lua de mel, teve todos seus pertences roubados por dois homens armados de idade entre 35 e 45 anos. Carro, celular e até a roupa que os recém casados usaram na viagem e estavam levando para a lavanderia foi roubada. No segundo, que não teve qualquer relação com o primeiro, ele e a família foram amarrados e feitos de reféns por bandidos que invadiram a casa do pai dele (aparentemente eram 4 menores de idade), levaram muita coisa que estava na casa e os presentes de casamento que estavam no carro do cunhado (que também levaram). Chegaram até a bater no pai dele.

Fatos como esses são mais do que suficientes para deixar qualquer um chocado. Mas esse sentimento é exacerbado ao ver como os valores de nossa sociedade estão invertidos. Vítimas de crimes bárbaros são vistos como os verdadeiros culpados da brutalidade que sofreram, enquanto seus algozes são tratados como vítimas da sociedade. É deprimente.

No mundo inteiro, mas mais especialmente no Brasil, vivemos uma época de glorificação de bandidos. Estupradores, assassinos e assaltantes são tratados como coitados, vítimas da sociedade (ah, o mal que Rousseau e sua filosofia estúpida fizeram à civilização ocidental!) ou como heróis revolucionários que combatem as elites ricas e opressoras. Políticos corruptos, condenados por tentarem dar um golpe na República, são saudados por comparsas e marionetes sem vontade própria como “guerreiros do povo brasileiro”. Enquanto isso, amigos, eu, vocês e milhões de outras pessoas que trabalham, pagam impostos e observam as leis, sofrem com a violência perpetrada por marginais e são achincalhados, chamados desde “coxinhas” a “Reacionários Nazi-Fascistas” (vão estudar! Como bem lembrou Flávio Morgenstern: “os ‘reacionários’ eram cantados como alvo de ódio pelos hinos dos dois maiores totalitarismos da história mundial, a Internacional Socialista e o hino nazista, a Canção de Horst-Wessel”).

Cinquenta mil (50.000!!) brasileiros assassinados por ano, milhares de pobres honestos que vivem em favelas são mortos por bandidos vinculados ao tráfico e é preciso que morra um amigo de um traficante para se iniciar uma campanha contra assassinatos? E pior: uma campanha que alveja, principalmente, não o tráfico e a bandidagem, mas... a polícia! Como se a grande maioria dos policiais federais, civis e militares não fosse honesta, trabalhadora e também não tivesse ódio dos bandidos infiltrados entre eles e que desonram a farda que vestem! Os nossos policiais honestos, que morrem como moscas, não merecem nosso luto? Onde estava essa indignação toda quando a menina Ana Clara, pobre e filha de trabalhadores, foi queimada viva por bandidos?! Qual a morte mais chocante, mais simbólica da barbárie em que vivemos? Os outros milhares de assassinados não merecem também um brado de revolta e a homenagem de um programa global?

Milhões de brasileiros pobres vivem em favelas. E quase a totalidade deles fez a opção moral de, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, serem honestos e trabalhadores. Essas pessoas são humilhadas todas as vezes que um Leonardo Sakamoto da vida ou algum dos seus seguidores propagam a ideia que os vizinhos deles que abraçaram o crime e que os aterrorizam diariamente são inocentes. Pessoas como Sakamoto, que difundem essas mensagens abomináveis, são mais do que ignorantes: são cúmplices dos crimes bárbaros a que pessoas honestas são submetidas todos os dias no Brasil e do silêncio retumbante a seu respeito. O Brasil não chora a morte de seus heróis, celebra seus bandidos.

E ainda temos que aguentar essa gente propagandeando o diagnóstico de que a violência toda que vivemos é fruto da desigualdade gerada pelo modo de produção capitalista (que eles não tem a mais vaga ideia do que significa). De novo: Vão estudar! Os países do mundo em que há maior ascensão social são justamente os que possuem as economias mais livres e abertas (deem uma olhada nas dezenas de estudos disponibilizados pelo Fraser Institute ou pela Heritage Foundation, ou leiam pelo menos um único capítulo de qualquer um das dezenas de livros do Thomas Sowell). Façam o mesmo estudo para os países mais violentos e miseráveis do mundo: vão encontrar governos totalitários em que a maior parte dos meios de produção está na mão do Estado. Toda vez que recebo uma foto de menininhos africanos desnutridos com uma legenda criticando o capitalismo, tenho a certeza que a pessoa que a enviou não tem a menor ideia do que está falando.

O Brasil ainda tem milhões de pobres porque possui uma das economias menos livres do planeta e um estado gigante, ineficiente e cuja menor e última preocupação é atuar exatamente nos aspectos de nossas vidas em que é mais necessário: na imposição da Lei e na defesa das liberdades individuais. O Brasil é violento e corrupto porque as leis não são cumpridas; porque criminosos raramente são punidos; porque opções morais asquerosas são vistas como atos revolucionários; porque um pobre que decide ser honesto e trabalhador é tido como otário e quando consegue ascender socialmente é imediatamente alçado à condição de traidor, um novo burguês da “classe média fascista”; porque um pobre que decide abraçar o crime e perpetrar o terror é saudado como um guerrilheiro; porque uma pessoa rica e honesta é considerada um explorador que merece ser roubado e agredido, mesmo que tenha conseguido tudo que tem graças ao seu próprio trabalho.
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